segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

ENSINAR A FAZER CIÊNCIA


           Numa altura em que a discussão sobre a Ciência se deslocou para os areópagos políticos e em que os cientistas bolseiros parecem não estar a ser tratados como deveriam, talvez tenha interesse fazer algumas breves considerações sobre o ensinar a fazer Ciência. Ora, esta não é um corpo de verdades inalteráveis mas algo que está sujeito a uma contínua reestruturação, à medida que surgem novos dados. O progresso da Ciência faz-se através da tentativa de dar respostas a problemas.
            Ensinar um aluno a formular um problema científico é, sem dúvida, uma das etapas mais motivadoras para o fazer gostar da Ciência. E ele formula um problema quando é solicitado a identificar um ou vários acontecimentos discordantes. Por exemplo, porque é que as cores são tão variadas nos seres vivos? Basta olhar à nossa volta e qualquer espírito interrogador formulará questões para as quais não encontrará respostas, pelo menos imediatas. Ora, é a partir deste espírito inquiridor que se traduz em ver problemas onde a maioria não vê e, depois, tentar dar-lhes respostas, que se vai construindo a Ciência.
Há, pois, que identificar os tais acontecimentos discordantes, observá-los com todo o rigor, segundo vários ângulos, em várias circunstâncias. O papel do professor, nesta fase, é pois, crucial, pois ele tenta que o aluno separe aquilo que é essencial do que é acessório. Uma deficiente ou incompleta recolha de factos não permitiria seleccionar aqueles que seriam os relevantes – os dados. Ora, é com estes que se procura dar uma resposta, ainda que provisória, para o problema que está a investigar-se. É a chamada formulação da hipótese. Esta é uma das etapas que irá nortear as acções que irão seguir-se.
A Ciência vive de hipóteses, de explicações que têm que ser testadas, sempre que possível, e que assumem um carácter temporário, embora algumas se possam considerar de longa duração, como a da Evolução, a da Relatividade. Este carácter de efemeridade em Ciência mostra que um verdadeiro cientista é, normalmente, uma pessoa intelectualmente modesta pois ele experimenta no seu dia-a-dia quanto as explicações que dá para os fenómenos são, por vezes, passageiras. Ora, o professor, ensinando a fazer Ciência aos seus alunos, está também a ensinar-lhes que no estudo dos fenómenos (físicos, químicos, biológicos, históricos, sociológicos…) se tem que usar de prudência, não fazendo afirmações categóricas que, mais breve do que pensamos, poderão ser desmentidas. Tal como na nossa vida!


                                                     Mário Freire