quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

ELITE


Elite

Destacar-se como elite
foros tem de pretensão.
Tal escol, se há quem o dite,
gera a discriminação.

Mas elite, quando fique
todo o mundo convencido
de partilha, sem despique,
essa então já faz sentido.

 ‘Quanto existe é bom e belo;
 sai de mim, tudo eu modelo’,
diz o Céu, a contemplar.

Com tais olhos, toda a gente
passa o mesmo a ter em mente,
sem ninguém discriminar.


João d’Alcor

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

INOVAÇÃO NO ENSINO DA CIÊNCIA



       Estava-se, então, nos finais dos anos 60, início dos anos 70. O Maio de 68, em França, tinha trazido uma certa irreverência não só aos costumes, mas também a outras áreas da intervenção humana. Vivia-se, por isso, naquela época, um desejo muito grande de fazer coisas novas no ensino secundário, muito especialmente na área em que me situava, a das Ciências. Um conjunto alargado de professores tentou, então, dentro dos condicionalismos existentes na altura, alterar o satuto quo em que o ensino das Ciências dormitava.
Acabava de ser lançado nos Estados Unidos o Programa BSCS (Biological Sciences Curriculum Study) que pretendia transformar o ensino da Biologia numa actividade de pesquisa em que o aluno, usando os métodos da ciência, pudesse ser um construtor do seu próprio saber.
Desejava-se, ainda, que esta forma activa de aprender pudesse, também, contagiar outras disciplinas de índole científica e daí, se possível, passar para as ciências humanas, tendo em consideração, claro está, os condicionalismos de cada área disciplinar. Para isso, haveria que entrar no cerne da produção do conhecimento, nos questionamentos que a realidade nos suscita e no uso de metodologias activas que conduzissem o aluno a acrescentar algo ao que já estava estabelecido.
A Fundação Gulbenkian, muito especialmente através de alguns dos investigadores do seu Instituto de Ciência, empenhou-se em colaborar nesse querer ensinar a fazer ciência. Para se atingir tal finalidade, foram efectuados cursos de Verão no Instituto de Oeiras, sessões laboratoriais, discussões, paineis, conferências, enfim, um sem número de actividades, apoiados pelos novos materiais que estavam a vir dos Estados Unidos. Um novo professor de ciências estava a surgir no ensino secundário.
O que se pretendia, afinal? Que a ciência não fosse encarada como um mero repositório de verdades inalteráveis, já estando completa, mas algo que está sujeito a revisão, a contínua reestruturação, à medida que surgem novos dados e estes se relacionam com os antigos. E que o aluno fosse disso, mais do que uma testemunha, um actor. Será que este espírito de inquietação, de dúvida, de questionamento e teste da realidade,  de que vive a ciência, conseguiu permanecer no ensino que hoje se faz?

                                      Mário Freire

domingo, 23 de fevereiro de 2014

PARA UMA HISTÓRIA DA PALEONTOLOGIA (3)


Nicolau Steno (1638-1696)

No século XVII, receosos de perseguição movida pela Igreja, ainda eram muitos os estudiosos que, convictos ou não, rejeitavam aceitar os fósseis como sendo restos de amimais ou plantas do passado. Um deles, o naturalista e químico inglês Robert Plot (1640-1696), no livro que publicou em 1677, Natural History of Oxford-Shire, descreveu um fémur de dinossáurio como sendo de um elefante deixado no terreno pelos invasores romanos.
Ao contrário desta visão, o dinamarquês Nicolau Steno (1638-1696) deu um grande passo no sentido do conhecimento científico, ao recuperar  as ideias de Da Vinci e de Palissy. Médico de profissão, com obra notável nos campos de geologia e da mineralogia, Steno já verificara que certos “petrificados” eram semelhantes entre si, quaisquer que fossem as rochas em que estivessem embutidos, e que, por outro lado, tinham o mesmo aspecto das partes dos animais a que se assemelhavam. Ao observar os dentes de um tubarão actual, Steno verificou que estes eram muito semelhantes a certos objectos encontrados em rochas sedimentares na Ilha de Malta, então chamados glossopetrae (línguas petrificadas), uma vez que faziam lembrar línguas de serpente transformadas em pedra.
 

       Cabeça do tubarão branco, numa xilogravura de Nicolau Steno, de 1667

            Depois de dissecar a cabeça de um gigantesco tubarão branco capturado em Itália em 1666, Steno mostrou que os glossopetrae eram dentes de antigos seláceos do mesmo tipo, caídos no fundo do mar, aí conservados no seio dos sedimentos e depois trazidos à superfície incluídos no seio da rocha em que esses sedimentos se haviam transformado. Esta explicação de Steno marca o começo da interpretação biológica dos fósseis, que vingou e teve pleno desenvolvimento, em especial, no século XVIII. Considerado um dos fundadores da paleontologia, é sua a frase “os corpos encontrados na terra que se assemelham a plantas e animais têm a mesma origem que as plantas e os animais a que se assemelham”. Esta afirmação, hoje evidente, representou, para a época, uma inovação e um romper com as ideias do passado. Com esta frase, inovou o conceito paleontológico de fóssil, no que foi apoiado pelo filósofo alemão Gottfried Wilhelm von Leibniz (1646-1716) e pelo físico e naturalista inglês Robert Hook (1635-1703), lembrado como uma das figuras chave da revolução científica do século XVII.
      Steno postulava que, se as conchas e outros restos de antigos seres vivos encontrados nas rochas de uma dada região são despojos de animais marinhos, as camadas que os contêm são necessariamente marinhas, concluindo que o mar ocupara essa região. Com estas afirmações, e embora sendo respeitador do tempo bíblico e dos relatos das Sagradas Escrituras, inovou também o conceito de fácies, definida como o conjunto de características paleontológicas, mineralógicas ou outras que permitem conhecer o ambiente em que a rocha se formou. Para muitos dos seus contemporâneos, era intrigante o facto de um animal petrificado e, portanto, sólido, estar dentro de uma rocha também ela sólida. No livro que publicou em Florença, em 1669, “De solidus intra solidum naturaliter contento dissertationis prodromus”, Steno deu a necessária explicação a este problema e ao levantado por outros corpos sólidos (cristais, veios, filões, camadas, encraves) embutidos no interior das diversas rochas.
                                                 Galopim de Carvalho

 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O EXERCÍCIO DE AMAR



O Amor visto como uma experiência corporal que se tem na sequência de um momento de ligação partilhado com outros, o qual proporciona uma ressonância positiva em nós, apresenta-se como um conceito diferente que nos alarga perspectivas. Permite-nos viver momentos emocionalmente intensos até com desconhecidos ou com pessoas acabadas de conhecer: dá-se um ‘click’ que nos provoca bem-estar e vontade de nos expandirmos, de vermos para além de nós próprios, de partilhar o que de bom temos, em suma, de praticar e viver o que é o amor.       

Um ‘click’ que surge inexplicavelmente no encontro de dois olhares que mexem celularmente connosco, daí este amor ser visto como experiência corporal. Apesar das causas serem inexplicáveis, as consequências são notórias: encontros felizes proporcionam mais saúde e bem-estar. A sintonia entre a mente e o coração, a sintonia entre várias mentes e vários corações, criam uma sensação positiva em nós. Vários estudos já provaram que as pessoas com mais ligações interpessoais são de longe mais saudáveis.

Momentos em que se sente amor pelo próximo e com o próximo devem fazer parte do nosso dia a dia. Eles acontecem, mas temos um papel fundamental em os procurar, em os provocar, em os sentir quando se proporcionam.

Os benefícios da abertura a este tipo de experiências são inimagináveis, pelo que é fundamental procurar aquele fio condutor que nos liga uns aos outros e que nos faz entrar em sintonia com as pessoas à nossa volta. Dedicar-se exclusivamente ao amor vivido através de um romance ou através dos laços familiares é limitativo. Ouse encontrar e sentir elos de ligação com outras pessoas, permita-se experienciar o que é a ressonância positiva com os outros e conheça o que é o amor que o transcende. E dedique-se a este exercício sempre, todos os dias um pouco, e aí a perspectiva do que é o amor muda!

 

                                     Rossana Appolloni

 


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

ELEIÇÃO



Há campanhas, tantas são,

com promessas sempre a eito,

em que alguém, após eleito,

vai gerando a decepção.

 

O bom senso irá chegar:

Quem, no mando, então, se via,

canta e dança de alegria,

ao ceder o seu lugar.

 

Chegue a era de eleição,

em que todo o cidadão

seja um vero servidor.

 

Não obstante haver defeitos,

todos somos já eleitos,

na visão do Criador.

 

João d’Alcor


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

ENSINAR A FAZER CIÊNCIA


           Numa altura em que a discussão sobre a Ciência se deslocou para os areópagos políticos e em que os cientistas bolseiros parecem não estar a ser tratados como deveriam, talvez tenha interesse fazer algumas breves considerações sobre o ensinar a fazer Ciência. Ora, esta não é um corpo de verdades inalteráveis mas algo que está sujeito a uma contínua reestruturação, à medida que surgem novos dados. O progresso da Ciência faz-se através da tentativa de dar respostas a problemas.
            Ensinar um aluno a formular um problema científico é, sem dúvida, uma das etapas mais motivadoras para o fazer gostar da Ciência. E ele formula um problema quando é solicitado a identificar um ou vários acontecimentos discordantes. Por exemplo, porque é que as cores são tão variadas nos seres vivos? Basta olhar à nossa volta e qualquer espírito interrogador formulará questões para as quais não encontrará respostas, pelo menos imediatas. Ora, é a partir deste espírito inquiridor que se traduz em ver problemas onde a maioria não vê e, depois, tentar dar-lhes respostas, que se vai construindo a Ciência.
Há, pois, que identificar os tais acontecimentos discordantes, observá-los com todo o rigor, segundo vários ângulos, em várias circunstâncias. O papel do professor, nesta fase, é pois, crucial, pois ele tenta que o aluno separe aquilo que é essencial do que é acessório. Uma deficiente ou incompleta recolha de factos não permitiria seleccionar aqueles que seriam os relevantes – os dados. Ora, é com estes que se procura dar uma resposta, ainda que provisória, para o problema que está a investigar-se. É a chamada formulação da hipótese. Esta é uma das etapas que irá nortear as acções que irão seguir-se.
A Ciência vive de hipóteses, de explicações que têm que ser testadas, sempre que possível, e que assumem um carácter temporário, embora algumas se possam considerar de longa duração, como a da Evolução, a da Relatividade. Este carácter de efemeridade em Ciência mostra que um verdadeiro cientista é, normalmente, uma pessoa intelectualmente modesta pois ele experimenta no seu dia-a-dia quanto as explicações que dá para os fenómenos são, por vezes, passageiras. Ora, o professor, ensinando a fazer Ciência aos seus alunos, está também a ensinar-lhes que no estudo dos fenómenos (físicos, químicos, biológicos, históricos, sociológicos…) se tem que usar de prudência, não fazendo afirmações categóricas que, mais breve do que pensamos, poderão ser desmentidas. Tal como na nossa vida!


                                                     Mário Freire

sábado, 15 de fevereiro de 2014

PARA UMA HISTÓRIA DA PALEONTOLOGIA (2)



C                                                     Coccodus insignis do Cretácico superior do Líbano

          Nos primeiros séculos do cristianismo, alguns dos seus teólogos com obra escrita, como Tertuliano de Cartago (circa 160-220) e Aurélio Agostinho, (345-430), mais conhecido por Santo Agostinho, eclesiástico romano e doutor da Igreja Católica, acreditavam que os fósseis eram restos de seres da Criação, mortos e enterrados durante o Dilúvio, tal como a Bíblia o descrevia, uma convicção também divulgada por João Crisóstomo (349-407), bispo de Constantinopla. O romano Eusébio Pamphili (265-339), bispo de Cesareia (Israel), usava, como evidências do Dilúvio e com idêntico raciocínio, os fósseis de peixes do Cretácico superior encontrados no alto do Monte Líbano, a cerca de 3000 metros de altitude.




Pedreira de calcário  do Monte Líbano, uma das jazidas de peixes fósseis do Cretácico superior mais ricas do mundo.


           A ocorrência de restos de animais marinhos, longe do mar, constituía, pois, uma clara demonstração de que esse acontecimento bíblico tinha invadido as terras, chegando a cobrir certas montanhas. Paulo Orósio (circa 383-420), natural da Hispânia e discípulo de Santo Agostinho, terá dado a mesma interpretação face aos fósseis de ostras existentes em serranias afastadas do mar.
         No século X, o médico árabe Abu ibn Sinna (980-1037), mais conhecido por Avicena, na sua obra “De Congelatione et Conglutinatione Lapidum”, retoma a ideia da escola aristotélica e explica a formação dos fósseis através de uma “virtude plástica”, que seria capaz de dar às pedras formas semelhantes a animais e plantas, sem, contudo, ter capacidade para lhes dar vida. Para ele, os fósseis testemunhavam tentativas infrutíferas da natureza para criar seres vivos, limitando-se a imitar-lhes as formas.
           Na Europa do Renascimento e na sequência do pensamento de Agostinho e de João Crisóstomo, ainda dominava a crença no Dilúvio e, assim, para alguns naturalistas, os achados de fósseis marinhos em terras emersas testemunhavam esta inundação universal. Entre os defensores desta ideia destacava-se, na Alemanha, o sacerdote católico agostiniano Martin Lutero (1483-1546), professor de teologia na Universidade de Wittenberg, de grande projecção na Europa e figura central da Reforma Protestante. Para outros, ainda desconhecedores da evolução biológica, tais achados, que designavam por lapides sui generis (pedras únicas no seu género), tinham origem no seio das rochas e eram interpretados como “caprichos da natureza”, por efeito de causas que não sabiam explicar, e não como restos de animais ou plantas. Foi neste contexto que Leonardo da Vinci (1452-1519), italiano de nascimento e uma das figuras mais importantes e conhecidas deste período, retomando as ideias pitagóricas, ignorou os textos sagrados, considerando os fósseis como restos de seres vivos anteriormente depositados no fundo do mar, fundo esse posteriormente soerguido. Da Vinci defendeu o interesse dos fósseis no conhecimento da história da Terra e descreveu, em pormenor, a fossilização. Tudo isto num tempo em que se queimava quem ousasse questionar a ordem da Criação e que pretendesse ver nos fósseis vestígios de criaturas anteriores à Divina Génese.
          Décadas mais tarde, o médico e alquimista alemão Georg Bauer (1494-1555), mais conhecido por Agricola, defendia que os fósseis resultavam de seres vivos e, recuando ao pensamento aristotélico, explicava que haviam petrificado por acção do então referido “suco lapidificante”.
        Na mesma época, o francês Bernard Palissy (circa 1510-1589)E, vendo que não tinham representação no presente, concluiu que os respectivos indivíduos haviam desaparecido, inovando, assim, o conceito de extinção das espécies. Ao observar os Cornus Ammonis (cornos de Ammon), nome que então se dava às amonites, verificou que estes fósseis eram aparentados com os actuais náutilos.



                                                  Amonite

       Esta designação, vinda da Antiguidade, fora inspirada na forma dos chifres enrolados do carneiro, visto como símbolo sagrado associado ao deus Ammon-Ra

       Precursor da paleontologia, Palissy ficou, porém, mais conhecido como ceramista e artesão, por ter procurado imitar a porcelana chinesa, e pelos seus conhecimentos, avançados para a época, sobre nascentes e aquíferos e sobre hidráulica, nomeadamente, no que respeita o abastecimento de água às cidades.
       Entretanto, na Suíça, o naturalista Konrad Gesner (1516-1565) coleccionou fósseis e, na obra escrita que nos deixou, "De Rerum Fossilium”, descreveu e figurou estes achados, apesar de não se ter manifestado de forma clara acerca da sua natureza.

                                         Galopim de Carvalho