terça-feira, 10 de novembro de 2015

TRAVAR O TEMPO






A fúria de correr
A ânsia de querer
O cisma de agarrar
Um gesto perfeito.
A sede de beber
Da seiva de vencer.
O erro de desistir
Do sonho, por defeito.

A força do combate
A coragem no debate
É braço de revolta
Que anda à solta.
O desafio desenfreado
O conflito desgarrado
A mentira que passeia
Sem escolta.

A embriaguez desta vida
O descontrole na corrida
A rajada de vento
Que corta o pensamento.
A sentença proibida
A emoção, mal contida
A fúria desmedida
Contra o tempo.


A força da palavra
A luta que se trava
Num contexto qualquer.
O tempo, sem Tempo
A afronta do momento
Na tragédia do “SER”.


Aldina Cortes Gaspar


sábado, 7 de novembro de 2015

ESMAGAMENTO DE PREÇOS E AMBIENTE






         Numa perspectiva sócio económica, tenho-me interessado pela evolução dos preços dos alimentos que servem de base à nossa alimentação. Entre outros, verifico com surpresa o preço cada vez mais baixo da carne, em especial de frango e o preço manifestamente baixo, da banana importada quando comparado com o de outras frutas.
         Comecemos pela carne de frango.
         O sector avícola nacional sofreu grande expansão com o consequente aumento dos resíduos provenientes das indústrias de processamento das aves. Esses resíduos caracterizam-se pelo elevado teor de matéria orgânica e carga patogénica, constituindo um material de alto poder poluente.
         Recentemente, tem havido uma maior preocupação com a preservação ambiental, através da publicação de legislação que pretende controlar a carga poluente presente no efluente, antes da sua deposição no meio ambiente.
         Os efluentes oriundos do abate de aves, quando não tratados, representam focos de proliferação de insectos, odores e ainda quando lançados em cursos de água, podem ocasionar a eutrofização dos mesmos. Este processo caracteriza-se pela diminuição do oxigénio dissolvido no meio e a proliferação exagerada de plantas aquáticas, resultando em maiores conteúdos de azoto e fósforo dissolvidos, pondo em risco a sobrevivência da fauna piscícola.
         Por sua vez, a banana não sobe de preço há longos anos; tem um preço consideravelmente mais baixo que o das restantes frutas importadas.
         Os grandes produtores de banana utilizam elevadas cargas de adubos e pesticidas de modo a aumentar a produção e, consequentemente, os lucros. Refira-se que os países produtores de bananas são países de economia emergente onde, tradicionalmente, a preservação ambiental não constitui uma prioridade.
         Será que a indústria da carne de aves, vendendo-se o frango a pouco mais de um euro por quilo ou a indústria de produção de bananas vendendo-se por vezes a banana a menos de um euro por quilo, terá interesse e capacidade financeira para internalizar os grandes custos ambientais referidos acima?

                                                  FNeves




quarta-feira, 4 de novembro de 2015

PENSAR O INABITUAL PARA SER COMPETITIVO





O título que encima esta crónica é o mote que o prof. Stéphane Garelli, professor na Universidade de Lausanne e especialista em competitividade, usa nas suas palestras e aulas para induzir os seus alunos e empresários a serem elementos fomentadores de competitividade.
Há que distinguir entre competição e competitividade. A competição tem a ver com a interacção entre pessoas que disputam algo. A competitividade centra-se nas organizações, nas empresas e tem em vista cumprir a sua missão com maior êxito do que as suas congéneres ou competidoras.
A raiz das duas palavras – competição e competitividade - é a mesma e ambas visam a supremacia de uma pessoa ou de uma empresa sobre as outras.
Quanto à escola, ela vive uma contradição, no que se refere aos conceitos de competição/competitividade. Como instituição educacional, ela deveria menorizar o espírito competitivo que possa existir entre os alunos e, ao mesmo tempo, reforçar laços de inter-ajuda, de cooperação entre eles. Isto não significa que ela não lhes ensine, através do desporto, o que é uma sã competição. Por outro lado, a escola tem que ensinar conteúdos, desenvolver capacidades e formar o carácter dos alunos de modo que eles possam, um dia mais tarde, na sua vida profissional, gerar instituições e empresas competitivas.
Albert Einstein dizia que “a lógica conduzir-vos-á de A a B mas a imaginação conduzir-vos-á para toda a parte”. Por isso, Stéphane Garelli diz aos seus estudantes que se tiverem uma ideia brilhante mas lógica, eles devem esquecê-la imediatamente: algum outro já a terá antes deles. Para Garelli, ser competitivo é pensar o inabitual, o que está fora do previsível.
E é neste ponto que entra a escola, na sua relação com a competitividade: ela tem que proporcionar ocasiões, dentro e fora da sala de aula, em que os alunos possam dar aso à sua imaginação, à sua criatividade, seja na explicação de um fenómeno, seja na solução de um problema, seja no dar resposta a uma situação de ordem social da comunidade…

Ensinar a competitividade na escola é, através da cooperação entre os alunos, proporcionar-lhes oportunidades de criarem, inventarem, imaginarem algo de novo e, se possível, a favor do bem comum. 

                                   Mário Freire

domingo, 1 de novembro de 2015

FORTALEZA




Quem só pensa em se armar
abdicou do seu poder.
Mesmo à custa de lutar,
de certeza vai perder.

Força armada... Que fraqueza,
que ironia.  A bem dizer,
o que prova é a certeza
de que o medo quer ‘sconder.

Fortalezas construídas,
entaipando tantas vidas,
geram lutas e terror.

Mas há outra Fortaleza,
aliada à singeleza:
A Virtude, qual chama em flor.

João d'Alcor


quinta-feira, 29 de outubro de 2015

GEOLOGIA E CIDADANIA




Quando iniciei a minha caminhada nos trilhos da Geologia, ainda na situação de estudante na Licenciatura, trazia como bagagem os conhecimentos bem organizados e bem explanados nos livros do professor João Carrington da Costa, da Universidade do Porto. Sem o espalhafato colorido e o estereotipado de conceitos, reduzidos a meras e rígidas definições de alguns dos livros actuais, o estilo literário, discursivo, dos textos deste que foi mestre de dois grandes nomes da geologia portuguesa – Carlos Teixeira, na Universidade de Lisboa, e Cotelo Neiva, na de Coimbra – ainda hoje convida à leitura, não obstante a natural desactualização de mais de seis décadas de espectaculares avanços.
       Melhor do que amestrar o aluno a responder, tantas vezes acriticamente, aos testes e exames, a prosa cuidada do professor Carrington despertava-lhe a curiosidade pelos problemas abordados e encaminhava-o a reflectir sobre eles. Tal era a sua capacidade de sintetizar, com inteligência, rigor e elegância escrita, longos trabalhos de outros autores que, dizia o professor Orlando Ribeiro, «se tivesse disponibilidade financeira, tê-lo-ia contratado para lhe fazer recensões inteligentes de teses de doutoramento e de outros calhamaços».
       A vivência que experimentei, como cidadão e como docente, sempre me confrontou com uma sociedade pouco interessada no conhecimento científico, em geral, e ainda menos no respeitante às ciências da Terra. Este panorama tocou-me bem de perto quando, terminado o liceu, em 1950, mostrei vontade de cursar Geologia e o meu pai me desviou desse propósito, argumentando que esse era um caminho sem futuro e que, aliás, em sua opinião, ninguém sabia o que era e para que servia esse curso. Biologia, sim, era um curso que, no dizer dele, tinha sempre colocação garantida como professor de liceu. O desconhecimento e o consequente pouco interesse, entre nós, pelas disciplinas da área da Geologia é um facto que pude constatar mesmo entre a generalidade dos meus concidadãos mais letrados, quadros superiores e outros. Quantos são, pergunte-se, os nossos juristas, economistas, gestores de empresas, autarcas e homens e mulheres saídos aos milhares das nossas escolas superiores de artes e letras, capazes de responder às mais elementares questões que os geólogos trouxeram e continuam a trazer à luz do conhecimento? Quantos são, por exemplo, os portugueses capazes de explicar o baixíssimo custo dos hoje vulgaríssimos relógios de quartzo? Ou porque é que o alumínio, que foi coisa rara e cara no tempo dos avós, invadiu os trens de cozinha e é hoje um dos metais mais usados na construção civil (em caixilharia)? Ou, ainda, porque é que há sal-gema em Loulé, antracite (carvão de pedra) nos arredores do Porto, ardósias em Valongo, mármores em Estremoz e minério de cobre no Baixo Alentejo? etc., etc..
       Todos conhecemos que o saber científico e, em particular, o do domínio da Geologia, não faz parte das preocupações da grande maioria dos nossos agentes de cultura, quase sempre vindos de todas as áreas, menos das científicas e tecnológicas. O nosso sistema de ensino sempre subalternizou as geociências. Neste contexto, a maioria dos portugueses viu e ainda vê no estudo dos minerais, das rochas e dos fósseis algo de desinteressante e enfadonho, a cumprir para efeitos de avaliação escolar e, de seguida, lançar no caixote do esquecimento.
       Uma tal realidade, vinda de muito longe e que, só mais recentemente, mostra alguma tendência a inverter-se, não tem conduzido ao despertar de vocações em número suficiente, nem tem criado condições que fizessem sentir a necessidade de criação de aberturas profissionais e correspondentes postos de trabalho. Em consequência, o número de geólogos portugueses é francamente baixo face à importância da sua especialização profissional numa sociedade em franca transformação, carente de desenvolvimento, necessariamente sustentado, compatível com os valores da natureza, onde a prospecção, estudo, exploração e gestão dos recursos geológicos (águas subterrâneas, combustíveis fósseis e nucleares, minérios e rochas ornamentais e industriais), a implantação de grandes obras de engenharia (barragens, pontes, portos), a prevenção de catástrofes naturais, (sismos, erupções vulcânicas, cheias, deslizamentos de terras), a defesa do ambiente, o ordenamento do território, etc., assumem cada vez maior relevo.
       Contam-se pelos dedos de uma mão as Câmaras Municipais que incluem um geólogo nos seus quadros. Juristas, economistas, arquitectos paisagistas têm que lhes chegue, mas geólogos, praticamente, nenhuns. Algumas dão emprego a arqueólogos, e bem hajam por isso, mas paleontólogos, zero.
       O leitor que, eventualmente, tenha acedido à prosa que fui publicando ao longo da última vintena de aos, notará alguma repetição no tocar insistente desta mesma tecla, a da relativamente pouca atenção dada às ciências geológicas nas nossas escolas, em contraste com a importância deste domínio científico e tecnológico na sociedade. Esta minha insistência faz parte de uma estratégia assumida como atitude cívica radicada numa convicção bem fundamentada e muito arreigada. Ela não é mais do que a continuação do caminho iniciado por outros, com destaque para o Prof. Carlos Teixeira, em prol da Geologia e da dignificação da profissão de geólogo. Há quase meio século, na oração de sapiência proferida na sessão solene de abertura do ano lectivo 1967-1968, na Universidade de Lisboa, dizia este meu professor: “O estado de avanço de um País pode medir-se pela qualidade e extensão da cartografia geológica de que dispõe. O mesmo se pode afirmar quanto ao número de geólogos que possui, em relação à superfície ou a população”. Mais adiante, discorrendo sobre a situação da Geologia em Portugal, afirmava que o “o nosso País não figura entre aqueles em que os estudos geológicos estão mais avançados” e continuava dizendo que “não está ainda difundido no País o conhecimento da função do geólogo” e que “muitos dos responsáveis pela orientação técnica de trabalhos públicos e particulares estão desactualizados e não possuem a noção exacta dos serviços prestados pela Geologia”. Infelizmente, pouco ou nada mudou, no que concerne esta afirmação.
Ao referir-se aos livros de ensino neste domínio do saber, o Prof. Carlos Teixeira denunciava que “são, em geral, deficientes, desactualizados, mal apresentados”, atribuindo essa responsabilidade não só aos autores mas, também, em grande parte, às comissões que os aprovavam, parcialmente desconhecedoras das matérias. A experiência do livro único era, em sua opinião, “longa e claramente demonstrativa da ineficiência do sistema, que submete o aluno e o professor à imposição nefasta do compêndio, às vezes pejado de erros”.
       Como se vê avançou-se muito pouco, entre nós, nesta luta por um “lugar ao sol” de uma ciência que, nos países verdadeiramente avançados, é parte desse mesmo sol.
       No fim de uma longa carreira no âmbito da docência, da investigação científica e da divulgação, com experiência como geólogo de campo na cartografia, na prospecção e no estudo de jazidas minerais de interesse económico, sinto-me motivado para reflectir em torno da cultura geológica dos portugueses.
       Fala-se hoje muito de dinossáurios e já se vai sabendo o que são os fósseis, mas isso é, sobretudo, uma feliz consequência da mediatização que dos grandes bichos se tem feito, pois o tema vende-se bem e a comunicação social tira disso o melhor proveito, o que é bom para todos. Nos restantes domínios das Ciências da Terra e com as excepções que é justo acautelar, a cultura geral dos portugueses, praticamente, não existe, mesmo entre a maioria dos nossos cidadãos mais letrados, incluindo alguns jornalistas que insistem em tratar-nos por arqueólogos.
       Neste domínio do conhecimento não se erra ao dizer que, em Portugal, o cidadão médio, ou não teve qualquer aprendizagem nesta área do saber, ou esqueceu o muito pouco que aprendeu, num desinteressante e tantas vezes ineficaz ensino destas matérias, como tem sido, nas últimas décadas, infelizmente, característica notada do nosso sistema escolar. Esta realidade, repito, está na base de uma manifesta inexistência de cultura geológica nacional, a começar pela maioria dos responsáveis políticos e da administração a todos os níveis. Uma tal carência está, por exemplo, patente na pobreza de terminologia geológica usada nos escassos diplomas legais onde, a custo, se pode encaixar a protecção do património geológico.
       A recente mudança do nome do Instituto de Conservação da Natureza (ICN) para Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB) e depois ainda para Instituto d Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) foram decisões infelizes dos responsáveis e das respectivas tutelas que, talvez distraídas, a consentiram. Foi, ainda, uma decisão teimosa, desnecessária, redundante e ridícula, que denuncia a pouca atenção que estes senhores dedicam à geodiversidade, sem a qual (talvez eles andem esquecidos) não há biodiversidade. Nem esta que nos acompanha à superfície do planeta, nem a que só nos chega através das imagens colhidas nos campos hidrotermais das profundidades oceânicas.
       Através da Geologia poderemos explanar, de forma abrangente, ideias e interrogações que a todos interessam como, por exemplo, a origem, a constituição e a evolução do Sistema Solar, da Terra e da própria Vida. A estas questões universais, de pendor mais filosófico, juntam-se muitas mais, do domínio prático. Porque é que o Algarve é uma terra de lama vermelha no Inverno e de pó igualmente vermelho no verão, duas particularidades que marcam negativamente esta região tão assediada pelo turismo? Porque é que temos aqui, nesta ponta da Europa, a serra de Sintra, esta “pérola de petrografia mundial”? Porque é o norte do país mais montanhoso do que o sul? A que se deve a vasta lezíria do Tejo? Ou, ainda, porque emerge a vila de Ourique, altaneira, da extrema planura do Baixo Alentejo? São outras das muitas perguntas para as quais a geologia tem respostas, e que bom seria que um número cada vez maior de portugueses as fosse conhecendo.
       As Ciências da Terra não podem, pois, deixar de ter uma dimensão cultural ao dispor de toda a gente. Os professores devem ter consciência desta realidade quando se dirigem aos alunos. Não estão só a fornecer bases para eventuais licenciados em Geologia (sempre raros ou inexistentes numa qualquer turma escolar), estão, sobretudo e na maioria dos casos, a formar cidadãos para quem essas bases são fundamentais em termos de preparação global. Assim, o ensino do malfadado programa oficial deverá ser tornado atraente com elementos culturais ligados ao quotidiano dos alunos. As amarras do programa oficial e o obediente e acrítico manual escolar contrariam qualquer acção dos bons professores, no que toca o ensino vivo da disciplina. Porque não um programa mais flexível? Um programa que deixe, por exemplo, às escolas dos Açores ensinar vulcanismo a sério (qualquer das ilhas é um laboratório rico de extrema utilidade pedagógica, completamente desaproveitado) e permita aos do continente fomentar o gosto por este tipo de saber, iniciando os alunos na geologia da sua própria região: os granitos e os xistos no norte do país, as pirites e as sequências de rochas vulcânicas e sedimentares (Faixa Piritosa) no Baixo Alentejo, etc.. E porque não ligar estes conhecimentos às nossas origens como território e à sucessiva ocupação deste por outros povos e civilizações, em busca do ouro, do cobre, do estanho?
Se há domínios onde a regionalização faz sentido, o conhecimento geológico é certamente um deles. E, do mesmo modo que confiamos a nossa saúde ao médico, deveríamos dar ao professor alguma liberdade e tempo curricular para, em cada local e em cada oportunidade, escolher a melhor via formativa, o que não exclui a obrigatoriedade de cumprir um programa mínimo, criteriosamente escolhido, por quem tenha competência, não só pedagógica mas também científica, para o fazer.
       É urgente ultrapassar esta situação. E, enquanto o sistema educativo não fornecer aos nossos jovens a cultura geológica necessária e suficiente, é preciso que apareça mais gente a falar para fora das academias, para os professores e estudantes e para o cidadão comum que é, afinal, quem paga a investigação científica que andamos a fazer e a quem é devida justa retribuição.

                               Galopim de Carvalho


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O DESAFIO DA VIAGEM





Um dia, em conversa com uma amiga, falávamos das voltas que a vida dá, dos desejos não realizados e das concretizações inesperadas. Falávamos de mudanças e de estabilidade e, às tantas, ela disse-me: «Não quero mudar absolutamente nada na minha vida. Estou bem assim. Estou confortável como estou, considero-me uma pessoa feliz». Esta afirmação teve em mim um impacto tão duvidoso quanto assustador. Porquê? Simplesmente porque se a vida é um processo em constante evolução, como é possível não querer mudar absolutamente nada? A mudança faz parte do processo natural do desenvolvimento humano, pelo que, seguindo esta perspetiva, há sempre algo a mudar: contactar outras realidades, ter uma experiência diferente, conhecer pessoas novas introduzem mudanças na nossa vida. Mas ela não sente essa necessidade, quer a vida exatamente como está. Uma pessoa que não quer mudar nada recusa-se a crescer, a evoluir, a expandir a sua consciência. Life begins at the end of your confort zone (a vida começa quando saímos da nossa zona de conforto) e quem se acomoda fica condenado a murchar, é só uma questão de tempo.
Pensei em qual seria um dos maiores desafios para sair da zona de conforto: viajar sozinha! Aqui perdemos a segurança do ambiente social conhecido, perdemos o conforto da companhia familiar, abandonamos referências e certezas para sentirmos uma liberdade tão grande que nos invade as entranhas. Cada momento é uma escolha única e exclusivamente nossa, e cada pormenor é valorizado como nunca: alguém que nos sorri, que nos vê, que nos dirige a palavra… Quanto sentimos na pele o que verdadeiramente é a solidão, a não pertença, a desadequação, ficamos mais recetivos, olhamos para os outros com a comoção de quem não vê ninguém há muito tempo, apreciamos paisagens como se nunca tivéssemos visto nada de semelhante, aceitamos os imprevistos como parte do percurso, abrimo-nos ao desconhecido como fonte de aprendizagem, tornamo-nos mais amáveis, sensíveis, gratos, flexíveis, exploradores, autónomos, prestáveis, comunicadores com essência. Descobrimo-nos capazes de coisas impensáveis, olhamos para o mundo com a inocência e a curiosidade de uma criança ávida por descobrir mais e crescer, aprender, desenvolver-se e sentir-se parte daquela gente. E nesta viagem reconhecemos as nossas potencialidades, assumimos a responsabilidade pelas escolhas que fazemos, escolhas essas fruto de uma autonomia e desprendimento de deveres ou obrigações. Ficamos mais abertos ao próximo porque não há nada que nos prende; aceitamos a sua dança enquanto nos apetecer. E quando chegamos ao fim seremos pessoas certamente mais ricas. Recordaremos o sorriso que iluminou o nosso caminho, o encontro que abraçou a nossa alma. Fôssemos nós capazes de levar a vida como uma viagem sozinhos, onde nada é garantido, nada é certo nem seguro, mas onde cada encontro faz a diferença. Sozinhos, lá fora, não somos ninguém, mas somos mais nós próprios.

Rossana Appolloni

www.rossana-appolloni.pt

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

TEMPO DE AMAR





Num ápice rompe o sol
Num rasgo matinal.
Num sopro de águas, mil
Escorrendo do beiral.
Singelas flores de Abril
Fontes d´águas frágeis
Cascatas de voz pueril
De gestos frescos, ágeis…

Novamente, em Abril
O caminhar dos rebanhos.
O novelo do redil
Em cordões de vários tamanhos.
…E o despertar das flores
P´las veredas, em corredores?!...

A casta Natureza
Na flauta de um pastor
Decreta estar aberto
O Tempo do Amor!...




Aldina Cortes Gaspar