sexta-feira, 31 de julho de 2015

UMA LUTA ANTIGA





            Quando iniciei a minha caminhada nos trilhos da Geologia, ainda na situação de estudante na Licenciatura, trazia como bagagem os conhecimentos bem organizados e bem explanados nos livros do professor João Carrington da Costa, da Universidade do Porto. Sem o espalhafato colorido e o estereotipado de conceitos, reduzidos a meras e rígidas definições de alguns dos livros actuais, o estilo literário, discursivo, dos textos deste que foi mestre de dois grandes nomes da geologia portuguesa – Carlos Teixeira, na Universidade de Lisboa, e Cotelo Neiva, na de Coimbra – ainda hoje convida à leitura, não obstante a natural desactualização de mais de seis décadas de espectaculares avanços.
            Melhor do que amestrar o aluno a responder, tantas vezes acriticamente, aos testes e exames, a prosa cuidada do professor Carrington despertava-lhe a curiosidade pelos problemas abordados e encaminhava-o a reflectir sobre eles. Tal era a sua capacidade de sintetizar, com inteligência, rigor e elegância escrita, longos trabalhos de outros autores que, dizia o professor Orlando Ribeiro, «se tivesse disponibilidade financeira, tê-lo-ia contratado para lhe fazer recensões inteligentes de teses de doutoramento e de outros calhamaços».
            A vivência que experimentei, como cidadão e como docente, sempre me confrontou com uma sociedade pouco interessada no conhecimento científico, em geral, e ainda menos no respeitante às ciências da Terra. Este panorama tocou-me bem de perto quando, terminado o liceu, em 1950, mostrei vontade de cursar Geologia e o meu pai me desviou desse propósito, argumentando que esse era um caminho sem futuro e que, aliás, em sua opinião, ninguém sabia o que era e para que servia esse curso. Biologia, sim, era um curso que, no dizer dele, tinha sempre colocação garantida como professor de liceu. O desconhecimento e o consequente pouco interesse, entre nós, pelas disciplinas da área da Geologia é um facto que pude constatar mesmo entre a generalidade dos meus concidadãos mais letrados, quadros superiores e outros. Quantos são, pergunte-se, os nossos juristas, economistas, gestores de empresas, autarcas e homens e mulheres saídos aos milhares das nossas escolas superiores de artes e letras, capazes de responder às mais elementares questões que os geólogos trouxeram e continuam a trazer à luz do conhecimento? Quantos são, por exemplo, os portugueses capazes de explicar o baixíssimo custo dos hoje vulgaríssimos relógios de quartzo? Ou porque é que o alumínio, que foi coisa rara e cara no tempo dos avós, invadiu os trens de cozinha e é hoje um dos metais mais usados na construção civil (em caixilharia)? Ou, ainda, porque é que há sal-gema em Loulé, antracite (carvão de pedra) nos arredores do Porto, ardósias em Valongo, mármores em Estremoz e minério de cobre no Baixo Alentejo? etc., etc..
            Todos conhecemos que o saber científico e, em particular, o do domínio da Geologia, não faz parte das preocupações da grande maioria dos nossos agentes de cultura, quase sempre vindos de todas as áreas, menos das científicas e tecnológicas. O nosso sistema de ensino sempre subalternizou as geociências. Neste contexto, a maioria dos portugueses viu e ainda vê no estudo dos minerais, das rochas e dos fósseis algo de desinteressante e enfadonho, a cumprir para efeitos de avaliação escolar e, de seguida, lançar no caixote do esquecimento.
            Uma tal realidade, vinda de muito longe e que, só mais recentemente, mostra alguma tendência a inverter-se, não tem conduzido ao despertar de vocações em número suficiente, nem tem criado condições que fizessem sentir a necessidade de criação de aberturas profissionais e correspondentes postos de trabalho. Em consequência, o número de geólogos portugueses é francamente baixo face à importância da sua especialização profissional numa sociedade em franca transformação, carente de desenvolvimento, necessariamente sustentado, compatível com os valores da natureza, onde a prospecção, estudo, exploração e gestão dos recursos geológicos (águas subterrâneas, combustíveis fósseis e nucleares, minérios e rochas ornamentais e industriais), a implantação de grandes obras de engenharia (barragens, pontes, portos), a prevenção de catástrofes naturais, (sismos, erupções vulcânicas, cheias, deslizamentos de terras), a defesa do ambiente, o ordenamento do território, etc., assumem cada vez maior relevo.
            Contam-se pelos dedos de uma mão as Câmaras Municipais que incluem um geólogo nos seus quadros. Juristas, economistas, arquitectos paisagistas têm que lhes chegue, mas geólogos, praticamente, nenhuns. Algumas dão emprego a arqueólogos, e bem hajam por isso, mas paleontólogos, zero.
            O leitor que, eventualmente, tenha acedido à prosa que fui publicando ao longo da última vintena de aos, notará alguma repetição no tocar insistente desta mesma tecla, a da relativamente pouca atenção dada às ciências geológicas nas nossas escolas, em contraste com a importância deste domínio científico e tecnológico na sociedade. Esta minha insistência faz parte de uma estratégia assumida como atitude cívica radicada numa convicção bem fundamentada e muito arreigada. Ela não é mais do que a continuação do caminho iniciado por outros, com destaque para o Prof. Carlos Teixeira, em prol da Geologia e da dignificação da profissão de geólogo. Há quase meio século, na oração de sapiência proferida na sessão solene de abertura do ano lectivo 1967-1968, na Universidade de Lisboa, dizia este meu professor: “O estado de avanço de um País pode medir-se pela qualidade e extensão da cartografia geológica de que dispõe. O mesmo se pode afirmar quanto ao número de geólogos que possui, em relação à superfície ou a população”. Mais adiante, discorrendo sobre a situação da Geologia em Portugal, afirmava que o “o nosso País não figura entre aqueles em que os estudos geológicos estão mais avançados” e continuava dizendo que “não está ainda difundido no País o conhecimento da função do geólogo” e que “muitos dos responsáveis pela orientação técnica de trabalhos públicos e particulares estão desactualizados e não possuem a noção exacta dos serviços prestados pela Geologia”. Infelizmente, pouco ou nada mudou, no que concerne esta afirmação.
Ao referir-se aos livros de ensino neste domínio do saber, o Prof. Carlos Teixeira denunciava que “são, em geral, deficientes, desactualizados, mal apresentados”, atribuindo essa responsabilidade não só aos autores mas, também, em grande parte, às comissões que os aprovavam, parcialmente desconhecedoras das matérias. A experiência do livro único era, em sua opinião, “longa e claramente demonstrativa da ineficiência do sistema, que submete o aluno e o professor à imposição nefasta do compêndio, às vezes pejado de erros”.
            Como se vê avançou-se muito pouco, entre nós, nesta luta por um “lugar ao sol” de uma ciência que, nos países verdadeiramente avançados, é parte desse mesmo sol.
            No fim de uma longa carreira no âmbito da docência, da investigação científica e da divulgação, com experiência como geólogo de campo na cartografia, na prospecção e no estudo de jazidas minerais de interesse económico, sinto-me motivado para reflectir em torno da cultura geológica dos portugueses.
            Fala-se hoje muito de dinossáurios e já se vai sabendo o que são os fósseis, mas isso é, sobretudo, uma feliz consequência da mediatização que dos grandes bichos se tem feito, pois o tema vende-se bem e a comunicação social tira disso o melhor proveito, o que é bom para todos. Nos restantes domínios das Ciências da Terra e com as excepções que é justo acautelar, a cultura geral dos portugueses, praticamente, não existe, mesmo entre a maioria dos nossos cidadãos mais letrados, incluindo alguns jornalistas que insistem em tratar-nos por arqueólogos.
            Neste domínio do conhecimento não se erra ao dizer que, em Portugal, o cidadão médio, ou não teve qualquer aprendizagem nesta área do saber, ou esqueceu o muito pouco que aprendeu, num desinteressante e tantas vezes ineficaz ensino destas matérias, como tem sido, nas últimas décadas, infelizmente, característica notada do nosso sistema escolar. Esta realidade, repito, está na base de uma manifesta inexistência de cultura geológica nacional, a começar pela maioria dos responsáveis políticos e da administração a todos os níveis. Uma tal carência está, por exemplo, patente na pobreza de terminologia geológica usada nos escassos diplomas legais onde, a custo, se pode encaixar a protecção do património geológico.
            A recente mudança do nome do Instituto de Conservação da Natureza (ICN) para Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB) e depois ainda para Instituto d Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) foram decisões infelizes dos responsáveis e das respectivas tutelas que, talvez distraídas, a consentiram. Foi, ainda, uma decisão teimosa, desnecessária, redundante e ridícula, que denuncia a pouca atenção que estes senhores dedicam à geodiversidade, sem a qual (talvez eles andem esquecidos) não há biodiversidade. Nem esta que nos acompanha à superfície do planeta, nem a que só nos chega através das imagens colhidas nos campos hidrotermais das profundidades oceânicas.
            Através da Geologia poderemos explanar, de forma abrangente, ideias e interrogações que a todos interessam como, por exemplo, a origem, a constituição e a evolução do Sistema Solar, da Terra e da própria Vida. A estas questões universais, de pendor mais filosófico, juntam-se muitas mais, do domínio prático. Porque é que o Algarve é uma terra de lama vermelha no Inverno e de pó igualmente vermelho no verão, duas particularidades que marcam negativamente esta região tão assediada pelo turismo? Porque é que temos aqui, nesta ponta da Europa, a serra de Sintra, esta “pérola de petrografia mundial”? Porque é o norte do país mais montanhoso do que o sul? A que se deve a vasta lezíria do Tejo? Ou, ainda, porque emerge a vila de Ourique, altaneira, da extrema planura do Baixo Alentejo? São outras das muitas perguntas para as quais a geologia tem respostas, e que bom seria que um número cada vez maior de portugueses as fosse conhecendo.
            As Ciências da Terra não podem, pois, deixar de ter uma dimensão cultural ao dispor de toda a gente. Os professores devem ter consciência desta realidade quando se dirigem aos alunos. Não estão só a fornecer bases para eventuais licenciados em Geologia (sempre raros ou inexistentes numa qualquer turma escolar), estão, sobretudo e na maioria dos casos, a formar cidadãos para quem essas bases são fundamentais em termos de preparação global. Assim, o ensino do malfadado programa oficial deverá ser tornado atraente com elementos culturais ligados ao quotidiano dos alunos. As amarras do programa oficial e o obediente e acrítico manual escolar contrariam qualquer acção dos bons professores, no que toca o ensino vivo da disciplina. Porque não um programa mais flexível? Um programa que deixe, por exemplo, às escolas dos Açores ensinar vulcanismo a sério (qualquer das ilhas é um laboratório rico de extrema utilidade pedagógica, completamente desaproveitado) e permita aos do continente fomentar o gosto por este tipo de saber, iniciando os alunos na geologia da sua própria região: os granitos e os xistos no norte do país, as pirites e as sequências de rochas vulcânicas e sedimentares (Faixa Piritosa) no Baixo Alentejo, etc.. E porque não ligar estes conhecimentos às nossas origens como território e à sucessiva ocupação deste por outros povos e civilizações, em busca do ouro, do cobre, do estanho?
Se há domínios onde a regionalização faz sentido, o conhecimento geológico é certamente um deles. E, do mesmo modo que confiamos a nossa saúde ao médico, deveríamos dar ao professor alguma liberdade e tempo curricular para, em cada local e em cada oportunidade, escolher a melhor via formativa, o que não exclui a obrigatoriedade de cumprir um programa mínimo, criteriosamente escolhido, por quem tenha competência, não só pedagógica mas também científica, para o fazer.
            É urgente ultrapassar esta situação. E, enquanto o sistema educativo não fornecer aos nossos jovens a cultura geológica necessária e suficiente, é preciso que apareça mais gente a falar para fora das academias, para os professores e estudantes e para o cidadão comum que é, afinal, quem paga a investigação científica que andamos a fazer e a quem é devida justa retribuição.

                                 Galopim de Carvalho


quarta-feira, 29 de julho de 2015

FLEXIBILIDADE






Vive o demo contraído,
aferrado ao seu poder,
tenazmente endurecido
no pensar e proceder.

Que contraste há no semblante
de quem dança com a vida:
Ar alegre e confiante,
sendo espaço a dar guarida.

Ser flexível... porque não?
face a focos de tensão,
é tão bom descontrair.

Há na flexibilidade
tal doçura e à vontade.
É a vida em seu fluir.

João d'Alcor


segunda-feira, 27 de julho de 2015

PODE A ESCOLA ENSINAR COMPORTAMENTOS ÉTICOS?

                  



Os meios de comunicação social invadem-nos a toda a hora sobre comportamentos considerados menos claros quer de políticos, quer de altos funcionários administrativos, quer de banqueiros, quer de empresários... Por sua vez, muitas famílias, devido à sua desestruturação, não se encontram em condições para serem padrões de conduta compatíveis com modelos éticos para os seus filhos. É certo que o Estado garante condições para o ensino da religião e moral nos estabelecimentos de ensino público não superior. E essa garantia, podendo contribuir para dar aos alunos certos valores nesse domínio, só é acolhida por alguns. Há, ainda, fora da escola, a possibilidade de as crianças e os jovens frequentarem actividades em organizações que lhes possibilitam a aquisição de valores éticos (por exemplo, o movimento escutista).
De qualquer modo, no tempo em que vivemos, a escola é um dos redutos onde esses valores podem ser ensinados com proficiência. Ora, ela tem sempre a possibilidade de ensinar comportamentos éticos, quer através das decisões tomadas pelas direcções das escolas, quer dos comportamentos e atitudes dos professores dentro e fora da sala de aula, quer através dos conteúdos curriculares da maioria das disciplinas. O que interessava é que houvesse uma política de escola que considerasse os valores éticos como fazendo parte do currículo oculto, o qual, porém, poderia expressar-se nos modos e estratégias utilizadas nas várias disciplinas.
A maior parte das escolas tem normas de conduta que regulam as relações entre os seus intervenientes. Mas, mais do que isso, interessaria que os alunos internalizassem dois ou três princípios, nas suas relações com os outros, dentro e fora da escola. Um deles seria o de não fazer aos outros o que não desejariam que lhes fizessem. Outro, seria o de acreditarem que é melhor para a sociedade e para eles próprios obedecerem às regras e às leis estabelecidas do que não obedecer. Outro, talvez já não acessível à maioria, seria o de agirem de acordo com os valores que assimilaram, não importando as opiniões dos outros. É a coerência dos princípios que se defendem com as atitudes que se tomam. Um bom princípio para todos nós!


                                                 Mário Freire

sábado, 25 de julho de 2015

DANÇA DO MAR


 

Dança o mar a toda a hora

Não sei se ri ou se chora

Vai e vem a baloiçar.

Namora com uma estrela

Vai dormir nos braços dela
Nunca pára o seu bailar.

Passam gaivotas do sul.
O seu voo é mais azul
Se o mar as pode embalar.
E nas ondas da corrente
É morna a voz que se sente
De uma sereia a cantar.

Quando vem a maré cheia
Fica molhada a areia.
Nas rochas, restos de espuma.
Ouvem-se os búzios na praia
E a luz do sol desmaia
Se o céu, se veste de bruma.

E nesta dança constante
Muda, o mar, tão de repente
Astuto em sabedoria.
Vira o baile em tempestade
-Cautela que se faz tarde
O vento, ao mar, assobia!...

O mar verde tem mistério.
Mar azul é calmo e sério.
Há mares com nome de cores!
O mar negro tem magia
Mar vermelho, fantasia.
Mar é tela de pintores!...

Aldina Cortes Gaspar


“ IN PEDAÇOS”

quinta-feira, 23 de julho de 2015

FALANDO DE SOLOS

F


                                            Textura

Esta importante característica do solo é definida pela dimensão das partículas terrígenas nele contidas, encaradas como elementos de uma população, neste caso, a respectiva componente mineral.   Por influência dos colegas franceses, o estudo desta característica tem sido designado, entre nós, pela maioria dos autores, pelas expressões granulometria e análise granulométrica. Amplamente divulgadas na bibliografia científica da especialidade e nos manuais e outros textos dirigidos ao ensino, estas duas expressões, sinónimas entre si, apenas são correctas quando aplicadas aos sedimentos arenosos, siltosos e argilosos. Não o são, em rigor, quando se referem aos clastos grosseiros como são os calhaus, os seixos e outros  ruditos . Com efeito, o elemento grânulo (diminutivo de grão), usado na composição destas expressões, não é coerente com o carácter, por definição, grosseiro de conglomerados, brechas, cascalheiras, conheiras, moreias, etc.. Ao preferirem as designações textural analysis, mechanical analysis e size analysis,   os autores anglo-saxónicos encontraram maneira de contornar esta incoerência.
 Pioneiro da investigação sedimentológica, Soares de Carvalho, Professor jubilado da Universidade do Minho, com obra publicada neste domínio, propôs para este tipo de análise, em 1968, o nome dimensometria, que abandonou em favor da expressão análise dimensional, (equivalente do inglês size analysis) no que tem sido seguido por outros autores nacionais. Uma vez que, como se referiu atrás,  as dimensões dos elementos terrígenos são usadas na definição das texturas clásticas, a expressão análise  dimensional é, de facto, sinónima de análise textural. A outra expressão equivalente – análise mecânica – pouco ou nada usada entre nós, decorre, e bem, do capítulo da física, no qual se fundamenta este tipo de análise baseado, em especial, na crivagem, na queda por gravidade e na dinâmica dos fluidos. Não obstante as razões aduzidas, granulometria e análise granulométrica são hoje expressões generalizadas e consagradas entre muitos profissionais portugueses que utilizam esta técnica analítica (geólogos, pedólogos, geógrafos, engenheiros, etc.) e, como tal, ganharam direito a figurar no nosso vocabulário. Em conclusão, acentua-se que as expressões análise textural, análise dimensional, análise mecânica e análise granulométrica ou granulometria são sinónimas e todas elas (umas mais, outras menos) usadas entre nós.

Têm sido, ao longo dos anos, várias as propostas de escalas dimensionais com vista a este tipo de análise, não só de populações naturais (rochas detríticas e piroclásticas, rególitos e solos), como também de outras artificiais (britas, granulados e pulverizados das indústrias mineira, vidreira, cerâmica, alimentar, farmacêutica, etc.). Em 1898, o americano Johan August Udden (1859-1923) propôs a sua escala granulométrica, segundo uma progressão geométrica de razão 2 (ou 1/2, consoante o sentido do cálculo) com doze classes definidas pelos seguintes valores em milímetros: 16, 8, 4, 2, 1, 1/2, 1/4, 1/8, 1/16, 1/32, 1/64, 1/128 e 1/256. Anos mais tarde, em 1922, o seu discípulo Chester Keeler Wentworth (1891-1969) introduziu-lhe ligeiras alterações, alargando grandemente a sua utilização entre uma comunidade de sedimentólogos nascente e em crescimento. Em 1905, o alemão Albert Mauritz Atterberg (1846-1916) divulgou a sua classificação com base no valor unitário 2 mm, desenvolvida segundo uma progressão geométrica de razão 10 (dez), com os seguintes intervalos:
>200 mm – Block (bloco)
200 a 20 mm – Stein (burgau)
20 a 2 mm – Geröl (cascalho)
2 a 0,2 mm - gross Sand (areia grosseira)
0,02 a 0,002 mm - fein Sand ( areia fina)
0,002 a 0,0002 - Silt (limo)
<0,0002 – Ton (argila)
Segundo este autor, os valores escolhidos para limites das classes dimensionais propostas correspondem a pontos de mudança das propriedades físicas fundamentais dos clastos como, por exemplo, capilaridade, adesão, sensibilidade aos movimentos brownianos . A escala de Atterberg foi adoptada em 1927 pela Comissão Internacional da Ciência dos Solos, sendo ainda utilizada, em especial, nos laboratórios de Pedologia de muitos países europeus, entre eles, Portugal. Ao qualificarem os solos com base nesta distribuição dimensional, os pedólogos usam expressões como pedregoso ou cascalhento, arenoso ou areento, limoso ou siltoso, argiloso ou barrento  e outras que expressam termos intermediários, como argilo-limoso, silto-argiloso, areno-limoso, areno-argiloso, saibrento, piçarroso ou areno-pedregoso, etc. Ainda do ponto de vista textural, um solo é qualificado de equilibrado quando não revela predominância de umas classes dimensionais sobre as outras.
            A permeabilidade e a porosidade do solo e, consequentemente, a sua capacidade de retenção da água dependem grandemente da textura, o mesmo acontecendo com o seu comportamento químico e, daí, também com as respectivas aptidões agrícolas. Por seu turno, a textura depende da natureza da rocha mãe, da sua granularidade, da alterabilidade ou estabilidade dos seus minerais, do clima e, ainda, do pendor da superfície do terreno (declive).
            Com a prática, o pedólogo consegue ter uma avaliação aproximada da textura do solo, esfregando uma pequena porção seca entre os dedos, operação que lhe permite averiguar da sua “aspereza” ou “macieza”. Fazendo este tipo expedito de ensaio com a terra molhada, avalia as suas qualidades adesivas e a sua plasticidade, que sabemos serem função do teor de finos (limo e  argila).

                                         Galopim de Carvalho

terça-feira, 21 de julho de 2015

FIRMAMENTO






Aprecio o chão bem firme
 de nosso astro, a madre Terra.
Grande dita é o sentir-me
parte de quanto ele encerra.

Mui além de dormitório,
onde me é dado repousar,
serve-me ele de observatório.
Quanto enxergo não tem par:

Fabulosa imensidão,
tendo por palco a escuridão,
milhões de astros, a brilhar.

Deslumbrante o firmamento.
Cada qual, em movimento.
Em meu vogo, a contemplar.

João d'Alcor


domingo, 19 de julho de 2015

A LIBERDADE E A FRATERNIDADE PODEM SER ENSINADAS NA ESCOLA?

         



Caim e Abel eram irmãos, filhos dos mesmos pais. Eles, no entanto, diferiam muito um do outro. Esta fraternidade identificada na Bíblia não se distingue daquelas que a humanidade, ao longo dos tempos, vai produzindo. A uma mesma natureza humana, com igual dignidade, vão correspondendo, igualmente, pessoas diferentes, com capacidades diversas, com especificidades próprias. Esta nossa humanidade, partilhando da mesma natureza, por isso mesmo fraterna na sua origem, é portadora, pois, de uma grande riqueza. É esta multiplicidade de dons que a faz avançar. Mas também é esta variedade de personalidades, como as de Caim, “que interrompem tantas vezes a nossa fraternidade de criaturas e deformam continuamente a beleza e nobreza de sermos irmãos e irmãs da mesma família humana. Caim não só não suporta o seu irmão Abel, mas mata-o por inveja, cometendo o primeiro fratricídio” (Mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz, 2015).
Mas a fraternidade implica que cada um, independentemente das suas capacidades, do seu saber e do seu poder, não coarcte o outro na liberdade de ser. Todo aquele que se vê limitado de crescer, de se acrescentar mais naquilo que é, está a ser maltratado na sua liberdade. Esta imposição da limitação da liberdade a outrem provém quer de pessoas individuais, quer de instituições, quer do próprio Estado e pode expressar-se em formas degradantes de trabalho, em condições de vida não compatíveis com a dignidade humana ou, ainda, na descartabilidade da pessoa, sendo esta tratada como um objecto. Todas estas situações em que se nega a fraternidade humana são fomentadoras de guerra e de revolta e, daí, está a atentar-se contra a liberdade humana.

Como é possível a escola fomentar estes valores? Claro que o substrato que cada um trouxer de casa sobre a prática da fraternidade e da liberdade muito ajudará a escola a complementar a sua tarefa. Há, no entanto, sempre oportunidades, em todas as disciplinas, de se sugerir que um aluno ajude um colega com mais dificuldades; de abordar temas de âmbito curricular onde se discuta até onde pode ir o uso da liberdade. Tudo depende da cultura da escola, da organização dos espaços mas, fundamentalmente, da iniciativa dos professores.

                                              Mário Freire