domingo, 14 de junho de 2015

FEITIO





Se ao feitio nos atemos
e à forma de o encarar,
bom ou mau o designar
não é caso de somenos.

Quer nos portes, quer nas crenças,
fácil é de constatar
quanto podem contrastar
e, daí, as diferenças.

 Numa ou noutra direcção,
exclusão há de permeio:
Um juízo tem lugar.

Mas se entregue ao coração,
vem o Amor que acerta, em cheio:
Tudo acolhe; não quer julgar.


João d’Alcor

sexta-feira, 12 de junho de 2015

ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS






                                   Crostas pedogénicas 

Calcretos
Com cem anos de uso, o termo calcrete, proposto por G. H. Lamplugh (1902), só nas últimas décadas começou a figurar na nossa terminologia geológica. Próprios de certos ambientes morfoclimáticos caracterizados por uma certa subaridez (precipitação abaixo dos 500 mm/a), estas crostas, ligadas à actividade pedológica, resultam de acumulação de carbonato de cálcio ao longo de extensões superficiais maiores ou menores . Os calcretos variam bastante em espessura, desde algumas dezenas de metros, na Austrália, África do Sul, Novo México (EUA), a alguns metros no sul e sudeste ibérico (3 a 5 m em Portugal, no Algarve).
            Uma das primeiras referências a este tipo de crosta é da autoria de Ch. Darwin (1846) que, sob a designação de tosca, a descreve em pormenor nas pampas argentinas.
            O termo calcrete, dos autores ingleses e aceite como unificador pela comunidade científica, abarca um sem número de designações regionais (cerca de meia centena), de entre as quais se destacam batha (Índia), calcário da catinga (Brasil), caliche (sul dos EUA), canto blanco (Canárias), croûte calcaire (Argélia e Tunísia), gigilim (Nigéria), kunkar (Índia), nari (Israel), Steppenkalk (Namíbia), tafeza (Norte de África), tapetate (México), travertine crust (Austrália), etc..
            O termo português caliço, corrente na toponímia do sul do país, é mais um entre nomes locais e regionais a acrescentar a esta lista, tendo sido usado por Paul Choffat (1887) nos seus trabalhos sobre a geologia do Algarve. Branqueiros e laginhas de cal são expressões locais usadas na terminologia geológica para referir este tipo de ocorrências em Porto Santo e no extremo oriental da Madeira (S. Lourenço), onde a subaridez é a regra climática.
            Os calcretos constituem corpos geológicos dispostos horizontalmente, sendo constituídos, no geral, por um nível friável, esbranquiçado, de aspecto pulverulento, farináceo, às vezes referidos entre nós, impropriamente, pelo nome de cré, sobre o qual se desenvolve, em estádios mais avançados de evolução, a crosta propriamente dita. Quando a evolução climática se faz no sentido do aumento da humidade, as crostas tendem e degradar-se, dando lugar a concreções calcárias espaçadas entre si.
            Na maior parte das situações, os calcretos formam-se sobre rochas-mãe calcárias, como se verifica no Algarve em relação com as sequências carbonatadas mesozóicas. Menos frequentes, mas não raras, são as ocorrências sobre gabros e outras rochas ígneas ou metamórficas, susceptíveis de fornecer cálcio, com acontece na região de Beja. Conhecem-se calcretos a culminar perfis em rochas praticamente destituídas de cálcio, facto que leva a aceitar que estas crostas, para além de enriquecerem em calcite, a expensas da rocha, do substrato (per ascensum), podem receber essa contaminação, lateralmente, vinda de outras rochas através das águas de percolação no solo. Neste último caso, à semelhança do que se passa com os lateritos e os bauxitos, coloca-se o problema da sua condição sedimentar, uma vez que há transporte do material carbonatado, ainda que em solução.

Fig. 25 – Perfis em calcretos. A – Benfarras (Algarve): 1 – calcário jurássico; 2 – brecha autóctone; 3 – calcreto pulverulento (caliço); 4 – crosta compacta. B – Ervidel (Alentejo): 1 – calcário lacustre paleogénico; 2 – calcreto pulverulento (caliço); 3 – crosta compacta residual em solo castanho (4).

            Na qualidade de solos residuais, os calcretos, para além do carbonato de cálcio, conservam um resíduo insolúvel resultante da meteorização e evolução pedológica da rocha-mãe. Assim, contêm, em geral, uma fracção detrítica grosseira (fragmentos rochosos, areias) e uma outra essencialmente argilosa, de alteração e de neoformação no solo, ou herdada, no caso das rochas que lhes estão subjacentes conterem estes filossilicatos na sua composição.
            Os calcretos são conhecidos a vários níveis do registo estratigráfico mundial, dos Old Red Sandstones, do Devónico da Escócia, ao Cenozóico, de que temos exemplos no Paleogénico da região de Macedo de Cavaleiros, na Beira Baixa, no Alentejo e na região de Colares (Sintra).

Silcretos

            Em coerência com a uniformização da nomenclatura, Lamplugh (1907) propôs também o nome silcrete para as crostas pedológicas enriquecidas em sílica. Sob diversas designações, estes arenitos do deserto, como lhes chamou R. Daintree (1872), ao descrevê-los no norte de África, são conhecidos por grés polimorfos em Angola e no Congo, por duripans nos Estados Unidos, por surface quartzites na África do Sul, por porcelanites na Austrália, por meulière em França, etc..
            Os silcretos são característicos de regiões de tendência árida com drenagem deficiente, muito planas, com declives mínimos (inferiores a 5%), sendo comuns na África do Sul, Namíbia, Calaari, Mauritânia, Austrália e nordeste do Brasil, onde as espessuras são da ordem das dezenas de metros, podendo ocorrer sobre quaisquer tipos de rocha-mãe. É, em particular, sobre as rochas sedimentares terrígenas (conglomerados, arenitos, siltitos, argilitos) ou os seus equivalentes não consolidados (cascalheiras, areias, siltes e argilas) que os silcretos são mais frequentes e atingem maior expressão (em espessura e extensão).
            A silicificação, nuns casos per ascensum, a parir do substrato, noutros por contaminação lateral, é feita sob a forma de opala, nos silcretos mais recentes, ou de quartzo microcristalino (calcedonite) ou fanerítico, nos mais antigos. No decurso da diagénese, como é sabido, a sílica amorfa tende a passar a cristalina. Nuns casos, a silicificação consiste na cimentação do horizonte pedológico por penetração da sílica nos vazios; noutros, verifica-se ter havido substituição epigénica (molécula a molécula) do material do perfil por sílica. É o que acontece na transformação (frequente) de calcretos em silcretos, por substituição do carbonato de cálcio pela sílica. Silcalcretos e calsilcretos são, assim, designações que procuram referir estádios intermediários dessa metassomatose.
            Em Portugal, nas últimas décadas tem vindo a ser reconhecida a ocorrência de silcretos  quer sub-actuais (Quaternário de Rio Frio, Setúbal) quer mais antigos, em especial no Cenozóico da Beira Baixa, da Bacia do Tejo-Sado e do Alentejo interior. O grés porcelanóide, de há muito reconhecido no cimo aplanado do Buçaco, na vizinhança da Cruz Alta, deve ser considerado um silcreto de idade compreendida entre o Cretácico superior e o Paleogénico.

                                                            Galopim de Carvalho

quarta-feira, 10 de junho de 2015

HÁ VULCÕES EM PORTUGAL?

                                           



            A exploração de pedreiras tem originado grandes extensões de áreas degradadas, especialmente desde o início do século XX.
            A escassez de controlo e fiscalização têm conduzido a alterações ambientais com impacte visual bem evidente. São numerosas e inconfundíveis as “crateras” não vulcânicas resultantes de pedreiras abandonadas desde há décadas, mesmo em áreas protegidas.
            A actual legislação obriga os proprietários à regularização dos solos e do coberto vegetal após a exploração. Todavia, existem casos em que as empresas concessionárias não podem ser responsabilizadas pelas consequências ambientais decorrentes daquela actividade, ou porque as respectivas concessões já reverteram para o Estado ou porque essas empresas entretanto faliram.
            Recentemente, veio a público a proposta das entidades responsáveis pelo Ambiente de permitir o eventual depósito de resíduos industriais nas crateras de pedreiras abandonadas desde há décadas, nomeadamente na Zona dos Mármores, no Alentejo. Poderá desse modo facilitar-se o cumprimento da legislação que obriga os proprietários à sua recuperação pós-exploração, através da regularização do coberto vegetal e dos solos. Haverá todavia que fiscalizar com rigor os resíduos depositados, tendo em vista a preservação da qualidade dos solos e dos aquíferos que os atravessam.
            O impacte visual, paisagístico e ambiental das pedreiras é, habitualmente, grande: trata-se de crateras que rompem a paisagem natural. No entanto, e paradoxalmente, o efeito destruidor no território, é compensado pela possibilidade de utilização agrícola ou florestal, promoção turística e cultural, entre outros, destes novos espaços e posterior devolução à população.
            Estão a ser levados a cabo, um pouco por todo o mundo, projectos de recuperação de pedreiras abandonadas. Os responsáveis por esta intervenção são arquitectos, engenheiros e arquitectos paisagistas, muitas vezes com participação pública e privada, numa união entre economia, ecologia e paisagem. Em Portugal, é de realçar o projecto do arquitecto Souto Moura que transformou uma pedreira abandonada bem perto do centro da cidade de Braga, num estádio de futebol, por todos conhecido. E por que não lembrar que a Praça do Marquês de Pombal em Lisboa, resultou da recuperação de uma área degradada pela exploração de pedreiras.


                                    FNeves 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

AULAS DE 45 OU DE 90 MINUTOS?

                                        



Durante cerca de 10 anos vigorou a prática das aulas de 90 minutos nos 2º e 3º ciclos do Básico. Agora, a decisão sobre a duração das mesmas, se de 45 minutos ou de 90, passa a ser da responsabilidade das escolas, ouvindo pais, professores e alunos.
Para estabelecer a duração de uma aula, de modo que ela seja proveitosa, deveria atender-se, fundamentalmente, à capacidade de atenção do aluno. Ora, a atenção é um processo cognitivo pelo qual são seleccionados estímulos e sobre eles se exerce a concentração. Embora recebamos estímulos de várias origens, só atendemos a alguns deles. Em educação há, pois, que focalizar a atenção do aluno sobre determinados estímulos, ignorando outros que possam passar-se dentro ou fora da sala de aula. Esta capacidade de seleccionar os estímulos, e que exige esforço mental, vai variando com a idade, sendo maior num aluno do 12º ano do que num aluno do 5º ano.
Parece, pois, aceitável, considerando esta variável, que a duração das aulas nos anos de baixa escolaridade, seja menor do que nos anos mais elevados. Por outro lado, na sociedade digital em que vivemos, com a multiplicidade e brevidade de mensagens a que as crianças e adolescentes são submetidos, certamente que aulas de 45 minutos serão susceptíveis de terem maior rendimento do que aulas cuja duração é de 90 minutos. 
Claro que a atenção do aluno não varia, apenas, em função do tempo de exposição a uma mensagem. Há factores neurológicos e situacionais que podem ser um obstáculo à atenção. Além disso, a forma como a matéria é apresentada, o tipo de interacção que o aluno tem, quer com o professor, quer com os colegas na sala de aula, os meios utilizados, a sua disposição espacial na sala… são elementos igualmente condicionadores da atenção dos alunos. E esta é factor primordial da aprendizagem e da disciplina.

Passando, pois, a escola a ter que decidir sobre esta matéria, seria conveniente que ela ponderasse estes factores que, em minha opinião, justificam, na pré-adolescência e adolescência, as aulas com a duração de 45 minutos. Mas que sejam 45 minutos bem aproveitados! 

                                                Mário Freire

sábado, 6 de junho de 2015

FÉRIAS





Umas férias bem passadas
eis o mote desta vida.
Como agir, onde há maçadas?
- Abraçá-las, de seguida.

Bem viver seja o motivo,
aliado à confiança.
Tal amplexo desportivo
é vitória que se alcança.

Sempre em férias porque não?
O trabalho e o lazer
formam ludo em mor sentido.

Assim folga o coração
que, a pulsar, sente um prazer,
dia e noite, garantido.


João d’Alcor

quinta-feira, 4 de junho de 2015

ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS





                 Epipédon, o horizonte de diagnóstico

Não tem havido, entre os autores, concordância na definição dos diversos horizontes do solo. Por um lado, há grande dificuldade (se não mesmo impossibilidade) de generalizar a clássica e demasiado esquemática nomenclatura ABC, à totalidade das situações existentes nas mais variadas latitudes e altitudes terrestres. Assim, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos da América criou o conceito de horizonte de diagnóstico, usado na descrição e classificação do solo, com muito pouca ou nenhuma correspondência aos definidos nas nomenclaturas mais antigas atrás referidas. Surgiu, então, o conceito de epipédon (do grego epi, por cima, sobre; e pedón, solo.) descrito como um horizonte do solo gerado à superfície, correspondente à parte superior (A), de tonalidade mais escura (em virtude da presença de matéria orgânica), e ou a parte do horizonte eluvial (E).
            Consoante as características, os epipédons são referidos adjectivando-os com os termos que aqui se transcrevem:
            Fíbrico – horizonte com restos orgânicos reconhecíveis. Do latim fibra, fibra.
            Hístico – horizonte orgânico em solo mineral. Do grego histós, tecido (orgânico), em referência à presença de matéria orgânica pouco ou nada decomposta.
            Mólico - horizonte orgânico, espesso, friável e arejado. Do latim mollis, fofo, macio.
            Ócrico – horizonte orgânico, delgado, pouco humífero e, como tal, pouco corado. Do grego ochrós, pálido.
            Sáprico – horizonte com matéria orgânica intensamente decomposta. Do grego saprós, podre.
            Úmbrico – horizonte de estrutura maciça, espesso e muito escuro. Do latim umbra, sombra.
            Sempre que os horizontes sejam modificados por acção do homem, o que acontece nos terrenos agricultados, usam-se expressões como horizonte antrópico e horizonte ágrico.
            Nesta nova concepção do referido Departamento de Agricultura, são ainda reconhecíveis no perfil do solo outros horizontes subjacentes ao epipédon, no geral coincidentes com o horizonte iluvial (B) da nomenclatura clássica:
            Argílico – com acumulação importante de fracção argilosa.
            Câmbico – com textura fina em resultado de intensa alteração in situ da rocha-mãe. Do latim cambiare, trocar.
            Espódico – com material amorfo orgânico e mineral (hidróxido de ferro). Do grego spodion, cinza ou lava vulcânica.
            Nátrico – horizonte argiloso rico em sódio, com estrutura colunar ou prismática. Do árabe natrun, sódio.
            Óxico – com perda de sílica e enriquecimento em óxidos e hidróxidos de ferro.
            Da nova nomenclatura constam ainda outras qualificações relativas a horizontes cujas características merecem referência especial:
            Álbico – horizonte lavado dos óxidos e hidróxidos de ferro e, portanto, descolorido. Do latim alba, branca.
            Cálcico – com acumulação de cálcio de neoformação, de aspecto pulverulento. No caso de haver cimentação (crosta), usa-se o termo petrocálcico.
            Gípsico – com acumulação de gesso. Do grego gypsós, gesso.
            Sálico – com acumulação de sais.
            Finalmente, há que distinguir os horizontes superficiais mais ou menos endurecidos, cimentados e impermeáveis, isto é, que constituem crostas designadas por durimperme ou duripan, normalmente siliciosas (silcretos), às vezes, carbonatadas (calcretos), outras vezes ferralíticas (lateritos) e outras, ainda, aluminosas (bauxitos), quatro tipos particulares de crostas pedogénicas, um tema a desenvolver mais adiante.

                                              Galopim de Carvalho

terça-feira, 2 de junho de 2015

SUPERSTIÇÃO







A noite tarda
O dia ofusca.
Com fardo ou farda
A vida é parda
A noite é brusca.

Na rocha encalho
O céu me nega
Cortar baralho.
Fico um bandalho
Na luz que cega.

A aranha tece
Dois nós na teia.
-Há quem tropece!...
Sol que arrefece
O vento ateia.

Um lenço branco
Vê-se ondear.
Quebra o quebranto
Derrete o pranto
Amansa o mar!...


Aldina Cortes Gaspar