quinta-feira, 30 de abril de 2015

ENSINAR A MATEMÁTICA





A Matemática continua a ser, não só em Portugal, uma das disciplinas que maiores dificuldades traz aos alunos. Para contrariar esta situação, o ministro da Educação de França lançou, em Dezembro passado, uma iniciativa, denominada Estratégia Matemática, que visa modernizar o ensino da Matemática, torná-lo mais atractivo junto dos alunos, mais em sintonia com o tempo deles. Na verdade, ao aluno a Matemática aparece-lhe algo como inútil, ultrapassado, aborrecido…
Com as novas competências que a criança e o adolescente trazem já a partir de casa, com a vulgarização do computador e com a massificação do telemóvel e as múltiplas funcionalidades de que este é portador, fez com que a construção do pensamento da criança e do adolescente adquirisse novas tonalidades. Eles lidam mais com signos do que com coisas; a imagem é preferida ao objecto. Se a realidade era o último recurso em que o professor podia apoiar-se para estruturar o seu processo de ensino, essa mesma realidade passou a ter outra importância, uma vez que o aluno pode, agora, recriá-la. 
Pretende-se, então, com aquela Estratégia Matemática que os conteúdos desta disciplina ajudem a resolver problemas ligados ao quotidiano das pessoas, permitam aos alunos fazer face a situações da vida corrente e, ainda, que a sua aprendizagem seja feita de uma maneira mais lúdica e inovadora. Ora, diz Mickael Launay, um dos grandes impulsionadores deste tipo de ensino, o aspecto lúdico é, antes de tudo, um estado de espírito. Diz ele, em entrevista ao site Café Pédagogique, “um curso magistral com quadro tradicional pode ser lúdico. Tomemos o tema das equações. Uma equação é sempre uma adivinha e antes de entrar na teoria, é possível lançar desafios aos alunos, tais como: ‘podeis encontrar um número que não mude quando se multiplica por ele próprio?’”
Uma consulta ao site deste professor (Micmaths) que pretende retirar à Matemática aquele estigma da dificuldade, da chateza e da inutilidade, talvez valha a pena para quem se dedica à difícil tarefa de ensinar esta disciplina.


                                Mário Freire

terça-feira, 28 de abril de 2015

QUANDO OS SONHOS FALAM





Queria amar o sol, o sopro quente
Da beleza do dia que se solta.
Queria ser barquinho na corrente
Que parte sem destino e já não volta.

Queria ser trovão, estrela cadente
Gaivota, madrugada, grão de areia
E, correr, como corre uma nascente.
Beijar o oceano e ser sereia.

Pudesse, eu escrever, versar na água.
Compor em sinfonia horas de mágoa
Em pautas de Ravel ou de Chopin.

Baladas, me cantasse um trovador
Sob malvas de pétalas em flor
E, assim, m´enamorar cada manhã!...



Aldina Cortes Gaspar






domingo, 26 de abril de 2015

AS PEDRAS E AS PALAVRAS




              (Novo livro do Prof. Galopim de Carvalho)

As pedras e as palavras foram dois universos fulcrais na minha passagem por este mundo.
As pedras, modo mais popular de dizer as rochas, com as quais convivi profissionalmente durante mais de meio século, contam-nos a história do nosso planeta. Através dos seus minerais, da textura e de outros atributos falam das causas que lhes deram origem, das condições ambientais (pressão, temperatura, quimismo) em que foram geradas ou transformadas e muitas delas, ainda, da data do seu nascimento. São elas que conservam no seu seio os fósseis, testemunhos preciosos que nos permitem contar a história da Vida. Sem que muitos deem por isso, as pedras ocuparam, desde sempre, um espaço importante no nosso quotidiano. Nas suas cavernas, os nossos antepassados da Idade da Pedra encontraram abrigo e segurança e foram pedras as suas primeiras e as mais importantes matérias-primas. As pedras fortificaram os castros da Idade do Ferro e ergueram castelos e palácios ao longo da História. Estão nas choças dos primeiros povoados e fizeram a monumentalidade de assírios, egípcios, gregos e romanos, bem como a do Renascimento e do Barroco. Estão nas calçadas e pavimentos que pisamos e na estatuária de todos os tempos. Estão no ferro, no cimento, na brita e na areia do betão e, ainda, na cal que alveja o casario alentejano e algarvio. Estão nas amplas vidraças e nos caixilhos de alumínio da moderna arquitectura urbana. Fornecem todos os metais com que se constroem navios, comboios, aviões, automóveis e naves espaciais e estão na base de todos os electrodomésticos. Estão na televisão, no computador e no telemóvel. Estão nas baixelas e nas loiças de cozinha, nas jóias, nas fibras sintéticas, que tomaram o lugar do linho, do algodão, da seda ou da lã, e no silicone dos implantes em medicina reconstrutiva. Do sílex e do bronze dos primeiros machados à pechblenda , passando pela pederneira de mosquetes e bacamartes e pelos pelouros de catapultas e bombardas, as pedras foram e são uma constante na tenebrosa e altamente proveitosa (para os chamados “senhores da guerra”) indústria bélica, um flagelo que, numa caminhada de centenas de milhares de anos, sempre acompanhou a humanidade. No seu inesgotável engenho, o homem retirou das pedras todas as matérias-primas com que fez o progresso em paz, mas também, desgraçadamente, a guerra.
As palavras, usei-as à saciedade, faladas e escritas, como professor na Universidade de Lisboa, durante quarto décadas, iniciadas como assistente no Departamento de Mineralogia e Geologia, num tempo em que se lhe exigia habilitações em todas as matérias curriculares da licenciatura, da Cristalografia à Paleontologia, passando pelas Petrologias, Estratigrafia e Geo-história, Geodinâmica Interna, Geomorfologia e outras. Usei-as, ainda e muito, por todo o país e no estrangeiro, em Escolas, Bibliotecas, Museus, Centros Culturais, Associações Científicas, Sociedades Recreativas, como cidadão empenhado na divulgação científica, na defesa e valorização da Geologia e da profissão de geólogo, bem como na salvaguarda do nosso património geológico e paleontológico. Herméticas quando lhes desconhecemos o significado, as palavras abrem-se-nos, de imediato, à compreensão se lhes descodificarmos os elementos constituintes, sendo este um dos papéis do professor e do divulgador.
A palavra é uma característica exclusivamente humana, que nos distingue dos restantes animais a que, de um modo demasiado simplista, adjectivamos de irracionais. Sabemos hoje que este nosso dom reside nos escassos pontos percentuais que nos distanciam do código genético do chimpanzé. Porque não aproveitar, então, essa capacidade e fruir os bens que o saber nos oferece? Façamos, pois, o jogo das palavras e vejamos como ele nos abre a uma melhor compreensão do Mundo.
Enquanto falada, a palavra é um conjunto de sons que, salvo excepções, define um e, por vezes, mais objectos ou ideias. Os estudiosos destas matérias admitem que a postura erecta dos hominídeos, a libertação das mãos (especialmente adaptadas à vida arborícola pelos seus avoengos primatas) e a utilização destas no talhe e no uso de instrumentos conduziram ao aumento de volume do cérebro e ao seu desenvolvimento em termos de complexidade. Assim, a possibilidade física de emitir mensagens sonoras, aceites como rudimentos de palavras, pressupõe a aquisição de uma capacidade intelectual e de uma outra, física, ao nível do aparelho fonador, susceptíveis de conceber símbolos expressivos transformáveis em emissões vocais. Uma tal possibilidade pode, ainda, ter surgido quando os nosso primitivos antepassados começaram cooperar entre si, adaptando formas de comunicação baseadas, não só em expressões gestuais, mas também nas citadas emissões vocais. Impossíveis de confirmar, as opiniões sobre o início desta etapa da hominização, variam entre as que a aceitam associada ao aparecimento do género humano, há cerca de 2.500.000 anos, às que a apontam como uma conquista do homem moderno, há menos de 100.000 anos.
Usada com marco divisório entre a a Pré-história e a História, a palavra escrita é um conjunto de símbolos gráficos ou grafemas susceptíveis de exprimir uma e, por vezes mais, ideias, registados num suporte material (barro, pedra, tela, papel, electrónico, etc.). Na nossa cultura, em que a grafia é alfabética, a palavra escrita é convertível na articulação de sons ou grupos de sons que reproduzem a palavra falada. Surgida há cerca de 5000 anos, na Mesopotâmia, acredita-se que por engenho dos sumérios, a palavra escrita desenvolveu-se como uma outra via de comunicação que, embora de uso muitíssimo mais restrito, possibilitou ao homem divulgar os seus conhecimentos muito para além do seu espaço geográfico e do tempo. São múltiplos os factores envolvidos na criação deste passo importante na civilização, e um deles foi o surgimento das cidades, como exigência do progresso da economia e da sociedade.
Através da palavra, o leitor encontrará nesta obra ampla divulgação na área das ciências da Terra, mas também, memórias, ficção e opinião. Uns mais longos, outros mais curtos, são, na maioria, textos inéditos e outros já editados em jornais, revistas ou blogues, algo modificados ou actualizados.

                             Galopim de Carvalho



sexta-feira, 24 de abril de 2015

FAINA





O mister, em grande afã,
faz da faina um pesadelo.
Lufa-lufa a torna vã.
Força o tempo e vai perdê-lo.


 Fica bem a diligência
que não seja corrupio.
Soube sempre a eficiência,
pôr a calma junto ao brio.

São modelo as andorinhas.
De longe vindas, sem cansaço,
agem lestas, mas dançando.

Fainas boas são as minhas.
quando o ritmo do que faço
vem das musas, inspirando.


João d’Alcor

quarta-feira, 22 de abril de 2015

ENSINEM-LHES QUE A TERRA É NOSSA MÃE





A frase que dá título a esta crónica foi extraída da conhecida Carta do Chefe Índio divulgado pelas Nações Unidas, em 1976, quando das comemorações do Dia Mundial do Ambiente. Ela está inserida na resposta dada em 1854 pelo Chefe Índio Seattle ao Grande Chefe Branco de Washington quando este, em nome do Governo, lhe propôs comprar uma grande extensão de terras índias, oferecendo em contrapartida a concessão de uma reserva.
Trata-se de um documento que, estando escrito de uma forma poética, traduz um genuíno amor pela Natureza mas, também, um apelo veemente ao respeito por tudo aquilo que, não tendo sido obra do homem, este utiliza para viver.
“As rochas escarpadas, os húmidos prados, o calor do corpo do cavalo e do homem, todos pertencem à mesma família”, diz-se na Carta. Mas se nesta família se tratam tão mal os que se assemelham, como não hão-de ser tratados os diferentes!
Este documento, que está disponível em vários sítios da internet, valeria a pena ser lido pelos alunos em aula e devidamente comentado e, até, se possível, dramatizado.
Este texto veio-me à memória ao ler o discurso que o Papa Francisco proferiu no Parlamento Europeu em Estrasburgo, em 25 Novembro passado. Nele se diz que não somos os senhores da Natureza. “Guardiões, mas não senhores”. Mas o que se verifica frequentemente, nesta sociedade onde o lucro a qualquer preço parece condicionar tudo é, segundo o Papa, a “soberba pelo domínio, pela posse, pela manipulação e pela exploração”. “Não a respeitamos (a Natureza), não a consideramos como um dom gratuito do qual cuidar”.
Talvez as palavras do Chefe Índio possam ainda ser ouvidas por aqueles que, tendo o poder, o usam para destruir o ambiente e lhes seja possível ensinar “que a terra é nossa mãe. Tudo quanto acontecer à terra acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, cospem em si próprios.”


                                                     Mário Freire

segunda-feira, 20 de abril de 2015

JOSÉ MARIANO REBELO PIRES GAGO (1948-2015)





Quando se chega à minha idade, já o escrevi, o que mais dói é ver partir os amigos e companheiros e olhar para os que resistem e saber que um dia destes nos iremos despedir deles, mais do que se formos nós a transpor essa passagem que todos temos como certa. Mas nestes amigos e companheiros, apenas incluía os da minha geração. Não os que ainda julgamos cheios de vida, como era o Zé Mariano para os amigos. Nestes casos, além dessa dor, há a consciência igualmente dolorosa, da perda de um futuro que no caso deste amigo, era particularmente promissor. Conhecemo-nos, nos anos 80, na Livraria Buchholz, num fim de tarde, em Lisboa, em que falámos de divulgação científica. E ficámos amigos.
Como físico de prestígio, outros mais habilitados do que eu falarão. É dele, como grande impulsionador da investigação científica e paladino da cultura científica, que posso falar com conhecimento de causa.
Em 1987, Mariano Gago, então Presidente da ex-Junta Nacional de Investigação Científica (hoje Fundação para a Ciência e a Tecnologia), lançava o “Programa Mobilizador de Ciência e Tecnologia”, no qual tinha cabimento uma componente dinamizadora das Ciências do Mar apresentada publicamente pelos Profs. Mário Ruivo, da Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO, Michael Collins, da Universidade de Southampton, R. U., e Michael Vigneaux, da Universidade Bordéus I, França. Na sequência desta iniciativa, João Alveirinho Dias, ao tempo o primeiro e único doutorado em Geologia Marinha, António Ribeiro, meu colega na Faculdade de Ciências de Lisboa, e eu criámos e desenvolvemos um projecto de investigação iniciado como estudo da plataforma continental portuguesa, sediado no Museu Nacional de História Natural.
Foram instituições participantes neste arranque para as Geociências do Mar: o Instituto Hidrográfico, como parceiro principal, o ex-Gabinete para a Pesquisa e Exploração de Petróleo, o ex-Instituto Nacional de Investigação das Pescas, o Departamento de Protecção e Segurança Radiológica do Laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial, o Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro, os Departamentos de Geologia da Universidade de Évora e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o Departamento de Ciências da Terra da Universidade do Minho e a ex-Secção Autónoma de Geologia da Universidade Nova de Lisboa.
Este projecto visou, sobretudo, a formação de jovens investigadores na área da Geologia Marinha, a promoção de acções interdisciplinares, a dinamização da cooperação interinstitucional, a optimização do potencial humano e dos recursos e equipamentos existentes nas diversas instituições envolvidas e, ainda, a criação de um corpo nacional de investigação neste domínio, até então, acentue-se, ausente das nossas universidades. Caracterizado por grande informalismo e por um mínimo de burocracia, constituiu um fórum de permuta de ideias e experiências, de discussão de resultados e de interajuda dos seus aderentes. Com o passar do tempo, evoluiu naturalmente para uma rede de investigação, eficaz e igualmente informal, cujos elementos, dispersos, como se disse atrás, são agora os promotores e os responsáveis pelos seus próprios projectos, em que cada um procura as colaborações mais convenientes e nos moldes que entenda estabelecê-las.
Com o indispensável e sempre disponível apoio do Instituto Hidrográfico, ao tempo do Director–Geral, Vice-Almirante José Almeida Costa e dos Comandantes Vidal de Abreu (Chefe da Divisão de Marés e Correntes) e Torres Sobral (Director-Técnico), o grupo inicial deste projecto de investigação (do qual saíram uma dúzia de doutorados em Geologia Marinha), deixou descendentes, ou seja, fez escola que continua a dar frutos, uma realidade que ficará esquecida se ninguém se der ao trabalho de a registar. Com uma primeira geração de investigadores que, de juniores passaram a seniores, vimos singrar a maior parte destes “filhos”, hoje independentes e a trilharem os seus próprios caminhos, o que nos enche de satisfação e orgulho. Actualmente há “netos” que já nem conhecem os “avós”, mas que só existem porque nós, sempre apoiados pelo já então Ministro da Ciência, José Mariano Gago, tivemos a ousadia de iniciar esta viagem e de segurar o leme deste navio, nas primeiras milhas desta gratificante navegação que conduziu, repito, à introdução das geociências do mar nas nossas universidades, designadamente, nas do Algarve, de Aveiro e de Lisboa, onde os mestrados e os doutoramentos se sucedem.
Pessoalmente, perdi um amigo. Entre muitas recordações guardo dele o prefácio que teve a amabilidade de escrever no meu livro “Como Bola Colorida – A Terra, Património da Humanidade” (Âncora Editora, 1907) e gentileza de ter feito a apresentação do “Dicionário de Geologia” (Âncora Editora, 2011), na Reitoria da Universidade de Lisboa, ao tempo do Reitor António Sampaio da Nóvoa.


                                             Galopim de Carvalho

sábado, 18 de abril de 2015

AMIZADE







Dentro de nós um fio se desprende
Que nos enlaça a outros com agrado.
Amizade que não se compra ou vende
O doce sentimento sem pecado.

É um sentir profundo, tão sincero!...
Um ardor que devolve a cor ao rosto.
Amigos valem oiro. Só espero
Dar-lhes, sempre, alegrias. Não desgosto.

Meus amigos, bengalas de veludo
São tesouros que valem mais que tudo
Muito além, das fortunas e grandezas.

Amizade é incenso, cor da alma.
A boa sensação que a dor acalma
A mais forte e maior das fortalezas!...


Aldina Cortes Gaspar