quinta-feira, 16 de abril de 2015

UMA FIGURA ÍMPAR NA PRESERVAÇÃO DO AMBIENTE EM PORTUGAL





            Figura notável nas questões do ordenamento do território e do uso da terra em Portugal, Gonçalo Ribeiro Telles licenciou-se em Engenharia Agrónoma e terminou o Curso Livre de Arquitectura Paisagista, no Instituto Superior de Agronomia. Iniciou a sua vida profissional como assistente deste Instituto. Mais tarde, seria professor catedrático convidado da Universidade de Évora, criando as licenciaturas em Arquitectura Paisagista e em Engenharia Biofísica, onde tive o grato prazer de ser seu discípulo.
            Após o 25 de Abril fundou o partido Popular Monárquico. Foi Subsecretário de Estado do Ambiente em diversos Governos Provisórios e Secretário de Estado da mesma pasta, no I Governo Constitucional. Dos seus projectos, é de assinalar o dos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, que assinou com António Viana Barreto e com o qual recebeu, ex-aequo, o Prémio Valmor de 1975.
            Em Abril de 2013 foi galardoado com o Prémio Sir Geoffrey Jellicoe, a mais importante distinção internacional no âmbito da Arquitectura Paisagista.
            Na noite de 25 de Novembro de 1967, as fortes chuvadas que se sentiram causaram a morte de centenas de pessoas. Em contraponto às causas divinas, o arquitecto, questionando o modelo de desenvolvimento do país, apontou a falta de ordenamento do território como a principal razão para a fatalidade. Pretendendo criar medidas de remediação e também com o intuito de salvaguardar a estrutura biofísica nacional, Gonçalo Ribeiro Telles foi, em 1982 e 1983, o grande impulsionador da criação da Reserva Agrícola Nacional e da Reserva Ecológica Nacional e ainda do Serviço Nacional de Parques. Não esquecer que, em Portugal pode aparecer uma moradia de luxo feita misteriosamente numa zona de paisagem protegida, um Parque Natural por exemplo, sem que ninguém a tenha autorizado e sem que ninguém seja responsável pela sua execução. Basta lembrar o que se passou recentemente na serra da Arrábida, com a construção da casa dum conhecido político.
            A premência de questões de natureza social como a habitação, o abastecimento de água ou o saneamento básico devem continuar a merecer as atenções dos nossos governantes mas, desejavelmente, em moldes que promovam a preservação do ambiente.

                                                                           FNeves




terça-feira, 14 de abril de 2015

FACILITAÇAO




Quanto importa ser vivido.
o carácter da simpleza.
Dom ele é da natureza,
mas que pode ser perdido.

Quantos sonham venha o dia
portador da salvaguarda,
vida inteira libertada.
longe da burocracia.

O objectivo é redução
à mais simples expressão.
Não mais fardo tão pesado.

Nasce a facilitação,
desta simples convicção:
Deus nos tem ao seu cuidado.

João d’Alcor


sábado, 11 de abril de 2015

COZINHAR, EDUCAR, INTEGRAR

                                  


Jamie Oliver é um chefe de cozinha inglês de nomeada mas é, também, uma personalidade televisiva do Reino Unido. Ele tem-se empenhado na cruzada de levar as pessoas a utilizar alimentos naturais e, mais recentemente, em mudar os hábitos alimentares nas escolas britânicas e, também, nas escolas americanas. Um dos seus grandes objectivos é alterar o sistema dietético escolar baseado em alimentos industrializados e fast-food e substituí-lo por refeições com alimentos variados, naturais e ricos em verduras e fibras.
Mas ele persegue, ainda, um outro grande objectivo: o fazer da cozinha um factor de integração social. Assim, ele criou o restaurante Fifteen destinado a dar formação a jovens com desvantagens sociais, proporcionando-lhes oportunidades de fazerem carreira no domínio da gastronomia.
Mas, tal como a música, aqui já referida, que foi utilizada na integração de crianças e adolescentes desfavorecidos, também ele, nas escolas, organizou equipas com esses adolescentes marcados socialmente. Assim, numa escola secundária de Huntington, na Virgínia, Estados Unidos, foi procurar adolescentes, na maioria com problemas comportamentais, e levou-os para a cozinha. O objectivo era dar um jantar às personalidades com maior destaque, incluindo um senador, que poderiam ajudá-lo, financeiramente, no projecto. O jantar seria confeccionado pelos próprios adolescentes. O desafio era grande e os jovens responderam com uma grande motivação e sentido de responsabilidade.
A refeição saiu óptima, julgando os convidados que ela teria sido confeccionada pelo chefe inglês. No final, porém, Jamie Oliver fez-lhes a surpresa: apresentou a equipa que o tinha ajudado e, depois, convidou cada um dos seus jovens colaboradores de cozinha a darem o seu testemunho.
Foi comovente, num programa que vi na televisão, ouvir alguns dos adolescentes dizerem que, pela primeira vez, tinham visto o seu trabalho valorizado; quanto tinham aprendido, não só sob o ponto de vista culinário, a trabalhar em equipa sem estarem constantemente a serem menosprezados no que faziam. Quanto se tinham empenhado naquele jantar por o chefe ter sabido confiar neles e esperar deles um trabalho condigno.
Se o exemplo demonstrado pelo chefe Oliver junto daqueles adolescentes, de confiança, de valorização daquilo que é feito, de promoção da inter-ajuda, proliferasse quer nas escolas, quer nas famílias, talvez se encontrassem menos adolescentes problemáticos e um pouco mais felizes.


                                     Mário Freire

quarta-feira, 8 de abril de 2015

ALENTEJANOS

Incapaz de ser senão diferente,
há um modo de calar e um falar claro,
um olhar cara a cara e frente a frente,
um viver devagar que tudo é raro
e único e só assim urgente.

Manuel Alegre, em “o Estilo”, 1996



Os vestígios mais antigos da presença dos nossos antepassados em terras do Sul do País remontam ao Paleolítico e estão representados, em especial, por utensílios em pedra lascada encontrados, em abundância, nos terraços fluviais de alguns dos seus rios, e por não menos importantes gravuras rupestres, como as trazidas às primeiras páginas dos jornais, na sequência dos trabalhos na barragem de Alqueva. Primeiro como recolectores, apanhando bolotas nos então muito mais cerrados montados, pescando e caçando, estes nossos longínquos avós acabaram por se tornar pastores e agricultores. Tal fixação levou à construção dos primeiros povoados nas colinas sobranceiras aos principais cursos de água. A densidade de construções megalíticas (antas, menhires e cromeleques), característica ímpar desta região, testemunha a importância da sociedade agropastoril que aqui teve berço há mais de 5000 anos.
Durante mais ou menos tempo, ligures, celtas, fenícios, gregos, cartagineses e romanos, ocuparam terras do Algarve e do Alentejo ou por aqui passaram, uns nas suas rotas comerciais e outros em busca do ouro, da prata, do cobre e do estanho, com particular relevo para os romanos. Estes, chegados no século III a.C., deixaram-nos importantes marcas civilizacionais da sua ocupação e do domínio político que exerceram durante, pelo menos, meio milénio. Antes de serem Alentejo e Algarve, estas terras constituíram parte da Hispania Ulterior (a mais afastada, em oposição a Hispania Citerior) na sequência da divisão administrativa criada na Península pelo invasor. Estas mesmas terras foram, mais tarde, a metade sul da Lusitania, a mais ocidental das três províncias ibéricas do Império Romano (Lusitania, Betica e Tarraconensis).
Outra importante presença, que ainda hoje se faz sentir, foi a muçulmana, iniciada no século VIII com a conquista de Mértola, por Muçá ben Nusayr, pondo fim à dominação visigótica, a última das invasões levadas a efeito por povos do norte da Europa (vândalos, suevos e visigodos, entre outros), habitualmente referidos como bárbaros (a palavra provém do grego antigo, βάρβαρος, que significa não grego). A ocupação muçulmana teve aqui uma longa permanência, cerca de cinco séculos, que só terminou com a reconquista cristã do Reino de Portugal, no século XIII.
Com a islamização, estas terras fizeram parte do Garb, que quer dizer Ocidente, designação naturalmente usada pelos que vinham de oriente, neste caso, os invasores árabes. Mais precisamente, o seu nome foi al Garb al-Andalus, que significa “o ocidente da Hispânia”, que incluía, não só o Algarve como também o Alentejo e a Andaluzia, a oriente do Guadiana.
A civilização muçulmana deixou aqui muito dos seus saberes, não só os tidos por eruditos, como os do melhor aproveitamento da terra. À unidade de coabitação entre a Andaluzia, o Alentejo e o Algarve, durante mais de um milénio, criada pelos invasores romanos e continuada pelos conquistadores islâmicos, seguiu-se a separação, delineada ao sabor da reconquista cristã e das disputas fronteiriças entre o reino de Portugal e o de Leão e Castela, ao longo do Guadiana. Não é, pois, por acaso, que há bastantes traços comuns entre nuestros hermanos andaluces e os alentejanos, por um lado, e entre estes e os algarvios, por outro. «Mediterrâneo por natureza e atlântico por posição», como nos ensinou o saudoso Prof. Orlando Ribeiro, os parâmetros fisiográficos desta região marcaram as populações que aqui viveram, do mesmo modo que continuam a marcar o alentejano dos dias de hoje.
Após a reconquista, concluída por D. Afonso III, e na sequência da reorganização territorial, foi criada a comarca de “Antre Tejo e Odiana” (Entre Tejo e Guadiana), designação antiga que resistiu ao tempo através da poética de Bernardim Ribeiro, na Écloga de Jano e Franco, e que corresponde, grosso-modo, ao actual Alentejo. Anteriormente, o termo Alentejo, como nome de região, não existia. Com o significado de “para além do Tejo”, esta designação foi criada pelos conquistadores vindos do norte, do jovem reino de Portugal. O “Ultra Tagum”, no latim dos eruditos de então, deu algo foneticamente muito próximo de “Alem Tejo”, no dialecto romance galaico-prtuguês, que era o que se falava aí, ao tempo dos nossos primeiros reis. Tendo este grande rio ibérico por fronteira natural, as terras que lhe ficavam a sul estavam, pois, para além do Tejo.
Alentejanos são, pois, todos os portugueses da margem esquerda do Tejo. E o seu nome, que nada tem de especial quando dito por alguém da margem norte, constitui um paradoxo sempre que são os próprios alentejanos a assim se autonomearem, uma vez que sendo e estando do lado sul do grande rio, para eles o lado de cá, e, portanto, aquém do Tejo, se estão a afirmar além dele, como bem lembrou o Prof. José Matoso. Alentejano é, pois, o nome pelo qual esta comunidade se identifica, sem se dar conta que, em rigor, o termo só faz sentido quando dito por estremenhos, beirões, minhotos, transmontanos, nunca por eles e, muito menos, por algarvios. Nestas condições, dever-nos-íamos considerar “aquentejanos”, ideia, aliás, já avançada no século XIII, mas que não fez vencimento. Com efeito, dois documentos assinados em Beja, em 1284, auto-situam-se no “Aquem Tejo”.

No que respeita esta que é a mais extensa região do País, a sua diversidade geográfica e geológica determina que, dentro de uma certa unidade, como é muitas vezes apresentada, haja diferenças sensíveis de local para local. Há um Alentejo interior, a oriente, semiárido, dominado pela azinheira, e um outro, a ocidente, menos seco, influenciado pelos ventos húmidos do Atlântico, onde o montado de cortiça impera. Por outro lado, a escarpa de falha da Vidigueira, um acidente tectónico que limita a sul a serra de Portel, marca igualmente, como um degrau, a separação entre duas superfícies bem assinaladas pelos geógrafos, a de Évora, a norte, mais elevada e acidentada, e a de Beja, a sul, mais rebaixada e de mais vastas planuras. São ainda Alentejo os alagadiços campos de arroz da bacia do Sado, os densos pinhais da franja litoral e o extenso areal e os alcantilados da linha de costa.
O substrato geológico e os condicionalismos climáticos que caracterizam o Alentejo foram favoráveis à vegetação que aqui se desenvolveu, parte dela indígena e outra parte introduzida, bem como à ocupação animal, também ela autóctone e importada. O montado e o porco preto dele dependente, a vinha, o olival e a seara de pão, a ”tetralogia mediterrânea”, no dizer de Alfredo Saramago, constituem elementos maiores tradicionalmente referidos nesta paisagem que, como todos sabemos, ficou marcada por um regime de «Terra pouca para muitos, terra muita para poucos», como cantou Manuel Alegre, em 1996.
São alentejanos os madeireiros serranos de Portalegre e os seareiros das planícies que se estendem para Sul. São alentejanos os cultivadores de sequeiro, os regadores do vale do Caia e os que vivem dos campos aluviais dos seus grandes rios. Mas não são menos alentejanos, quase sempre esquecidos, os pescadores na longa faixa litoral, que se estende da restinga de Tróia às falésias atlânticas do Algarve
Fala-se do falar alentejano, da cozinha alentejana, dos cantares do Alentejo e contam-se divertidas anedotas, visando os seus habitantes.
Há uma trintena de anos, transportei comigo, vinda do Alentejo interior, uma comadre de visita a uma filha residente em Almada. Viemos por Setúbal e, durante a subida da serra da Arrábida, esta minha amiga que, pela primeira vez, saía do seu cantinho, dava mostras de um certo mal-estar. «Não sei o que tenho, sinto-me apertada. Falta-me a lonjura do nosso Alentejo. Isto aqui é só cabeços. E que cabeços!», dizia para mim.
E foi assim até ao alto da capelinha de Nossa Senhora das Necessidades. A partir daí, na descida para Azeitão, foi-se-lhe diluindo a aflição e, quando passámos à planura, ouvi-a exclamar: «Aqui, sim, já a gente respira!».
Em sua opinião, voltáramos ao Alentejo. E tinha razão!
Administrativamente integrada na Estremadura, a península de Setúbal só a ela se liga pelas Pontes Vasco da Gama e 25 de Abril e pelo grande fluxo de cidadãos que, de uma e de outra banda do gargalo do Tejo, o atravessam diariamente, nos dois sentidos, a caminho do trabalho e no regresso a casa. Como geólogo contactei de muito perto com os terrenos e também com as gentes desta região, tendo tido oportunidade de constatar aqui a continuidade, não só territorial, como também cultural do Alentejo. São as fábricas de cortiça e de transformação de carne de porco, são os mercados, onde não faltam o pão e o queijo alentejanos, a massa de pimentão, os poejos, os cardinhos e as beldroegas, são os restaurantes e as tabernas à moda antiga, as colectividades culturais e recreativas.

        Galopim de Carvalho




domingo, 5 de abril de 2015

AURORA





Surgem gritos de azul na madrugada
Que destronam a noite feiticeira.
Há morcegos na casa assombrada.
Cavado corre o leito da ribeira.

Retalhado o luar vai de abalada
Perfurante uma asa rasga o dia.
Vai a noite fugindo em derrocada.
No choupal, já entoa a cotovia.

Tudo acorda em sonantes arrepios
Lança a luz, mil tentáculos sombrios.
Um dia é um degrau a decrescer.

Porque, além, no poente o sol se esconde?!...
Soberbo, o universo ouve e responde:
- Assim, está escrito e tem de ser!...


Aldina Cortes Gaspar





quinta-feira, 2 de abril de 2015

SER AUTÊNTICO NO TEATRO DA VIDA



Todos alteramos o nosso modo de ser segundo o contexto social em que agimos. Parece termos personalidades diferentes consoante a situação ou as pessoas com quem estamos. Quantas vezes não nos vemos a desempenhar vários papéis no mesmo dia: a filha, a mãe, a amiga, a profissional, a companheira... Estas diferentes partes de nós compõem o enredo das nossas relações pessoais e sociais, e são facetas normais da nossa personalidade. São como personalidades parciais, com vida própria, muitas vezes assumidas de forma inconsciente, e manifestam-se na sequência de ideias, acontecimentos ou estados emotivos que nos condicionam. A nossa personalidade é dinâmica, é composta por estes diversos papéis, e a dificuldade é geri-los e organizá-los adequadamente. Em casos extremos de insucesso, essa incapacidade traduz-se na patologia designada por desordem de personalidade múltipla, mas em geral provoca apenas conflitos interiores, ambivalência, ansiedade e depressão.
As partes que nos constituem são como as personagens de teatro no palco, personificadas por atores, cujo papel lhes foi atribuído pelo encenador. Este dirige à sua maneira como cada personagem deve intervir no conjunto da peça, que mais não é do que um microcosmos da própria vida. O nosso Eu (o encenador) tem a consciência do papel e da importância de cada personagem, possui a capacidade para avaliar a justeza do seu contributo consoante as necessidades e a coerência da peça. Percebemos bem que exercer o papel de mãe com o marido é desajustado, por exemplo. Cada personagem deve entrar em cena no momento certo, com plena consciência do que está a fazer. Enquanto encenadores, beneficiamos em aprender a gerir os conflitos entre as personagens da peça que se desenrola no palco da nossa psique e a harmonizar as forças dissonantes que perturbam o equilíbrio da personalidade. A nossa autenticidade encontra-se em nos sentirmos bem nos nossos vários personagens, pois não podemos viver sem eles. Porém, ao contrário do que se passa num espetáculo, a vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos (Charlie Chaplin).

Rossana Appolloni
www.rossana-appolloni