segunda-feira, 30 de março de 2015

EXTASE




Ver que a vida é tão fugaz
incomoda muita gente.
Mágoa há nisso a qual assaz
é moeda a mais corrente.

Vida eterna qual doutrina
não nos tira do degredo.
Quem convicto a ensina
pode não ter o seu segredo.

Jamais este está na dor
que do tempo faz tortura
e do espaço maus sendeiros.

O segredo está no Amor
que, no êxtase, se afigura
ter relógio sem ponteiros.


João d’Alcor

sexta-feira, 27 de março de 2015

GOSTAM DA ESCOLA MAS NÃO DAS AULAS

         




Um estudo realizado para a Organização Mundial de Saúde, dado a conhecer nos últimos dias de 2014, diz-nos que a maioria dos adolescentes gosta mais da escola do que das aulas. Este estudo assentou num inquérito a mais de 6000 alunos dos 6º, 8º e 10º anos.
Ora, este gostar da escola quer significar que os adolescentes privilegiam as relações com os colegas, os intervalos das aulas, seguindo-se as actividades extra-curriculares e os professores. Por sua vez, as aulas não os atraem, considerando a “matéria difícil, demasiada e aborrecida”, no dizer do próprio estudo. Estas conclusões não são de admirar. Centrar-me-ia, numa curta análise, em dois aspectos: nas relações com os colegas e nas aulas.
O grupo de pares desempenha, na adolescência, um papel importante, quer oferecendo um suporte na resolução da sua identidade, tornando mais preciso quem é e quem não é, quer na possibilidade de experimentar novos papéis e, em função da reacção dos outros, avaliar-se da concordância entre eles e a ideia que faz de si próprio. Estas relações com os pares vão, depois, evoluindo, passando da partilha das actividades com os colegas da mesma idade para a intimidade psicológica e a confidência. De qualquer modo, estas relações com os colegas são importantes para o adolescente e a escola, devidamente enquadrada, é o lugar propício para fomentar o desenvolvimento social do adolescente. Outro aspecto referido pelos inquiridos é o da fraca atracção que eles manifestam pelas aulas. Este tópico, porém, revela-se mais complexo na sua interpretação pois ele tem a ver com múltiplas variáveis. Apontaria, apenas, aquela que considero a mais importante e que tem a ver com o meio sócio-familiar do aluno. Um lar que não funcione regularmente, onde as preocupações para fazer face às necessidades do dia-a-dia se sobrepõem a quaisquer outras, onde o ambiente de estudo não é o adequado, não pode suscitar alunos que se interessem pelas aulas. Em relação íntima com estas situações encontra-se o atraso escolar. Como é que um aluno, com deficits de aprendizagem anteriores, pode sentir-se satisfeito numa aula onde grande parte da matéria lhe passa ao lado?  
Este estudo, não trazendo grandes novidades, interpela-nos sobre o papel da escola mas também sobre o papel da comunidade, principalmente aquele que tem a ver com funções de poder. O que é que estes diferentes poderes poderão fazer para que a sociedade seja melhor?


                                         Mário Freire

terça-feira, 24 de março de 2015

2015 - ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS




                            FALANDO DOS SOLOS

Para os romanos, solum aludia não só ao solo, tal como ele é descrito em pedologia,  mas também ao chão que pisavam, à terra onde nasciam e ao território pátrio que foi o deles.
Alguns pedólogos adoptaram este termo latino para designar apenas a parte superior, mais alterada, do perfil pedológico, rica em matéria orgânica, designando por alterito, rególito (do grego rhegós, cobertura, e lithós, pedra) ou saprólito (do grego saprós, podre, e lithós, pedra) a restante parte do perfil que se lhe segue em profundidade, representada pela rocha-mãe simplesmente meteorizada.
Em geologia planetária fala-se, por exemplo, de “solo lunar”, embora sabendo que esta entidade não possui a componente viva essencial à sua definição na Terra. São muitos os que lhe chamam rególito, termo neste caso mais correcto, posto que alude à sua condição de material incoerente de cobertura que não resulta de um processo de meteorização (ali inexistente), mas sim, da pulverização da crosta rochosa selenita (em especial, anortositos e basaltos), na sequência dos impactes meteoríticos a que esteve intensamente sujeita num passado longínquo, há milhares de milhões de anos, e ainda está, embora mínimo e sem expressão actual. Do mesmo modo, o “solo marciano” não passa de areia solta e  pedras (fragmentos de rocha dispersos) à superfície do “planeta vermelho”.

No sentido a que se referem pedólogos e geólogos, a composição do solo decorre da natureza da rocha-mãe, da topografia e do clima, quer o decorrente da zonalidade latitudinal, quer o relacionado com a altitude, e, consequentemente, dos processos que lhe deram origem. A rocha-mãe começa por se descomprimir, por diminuição da pressão litostática com a aproximação da superfície, e, eventualmente, a sofrer alguma desagregação mecânica, abrindo-se à penetração da água e dos gases atmosféricos  (oxigénio e dióxido de carbono) que promovem a sua meteorização química abiótica (decomposição), mais ou menos pronunciada, em função das citadas condições ambientais. Como resultado, a rocha evolui para um material terrígeno (fenoclastos , areia, silte e argila) incoerente ou desagregado,  ou seja, o alterito, como é, por exemplo, no caso do granito ou do gnaisse, o saibro ou arena. Via de regra, a esta fase segue-se a instalação de microorganismos e de plantas sucessivamente mais exigentes (muscíneas, herbáceas, arbustivas e arbóreas), transformando o alterito num solo.


A invasão desta capa de alteração (ou de um qualquer tipo de depósito aluvionar) pela vida vegetal acrescenta-lhe, ainda, os seus restos mortos em decomposição e os produtos da sua actividade biológica, desenvolvendo processos bioquímicos hoje muito bem estudados.
Consoante a intensidade e a duração deste processo podemos distinguir solos imaturos ou incipientes (pouco ou nada evoluídos), solos evoluídos ou maturos, havendo todos os termos de passagem entre estes dois extremos.

                                                     Galopim de Carvalho

sábado, 21 de março de 2015

EXPRESSÃO





Liberdade de expressão,
qual direito universal,
não dispensa - Ah isso não -
algo que é fundamental:

O respeito a si devido.
Quanto aos outros, atenção:
Desprovida é de sentido
qualquer forma de invasão.

Expressão é sempre evento
quer do bem, ou quer do mal.
Tal convida a estar atento.

No bem só e a bom contento,
é devido, e tão normal,
expressarmos o talento.


João d’Alcor


quarta-feira, 18 de março de 2015

O FUNDAMENTALISMO AMBIENTAL





            Fundamentalista poderá ser alguém que se nega dialogar ou, então, alguém para o qual algo é sagrado pelo que não está disposto a qualquer tipo de negociação. Actualmente, ouve falar-se bastante em fundamentalismo islâmico e as consequências dele no mundo contemporâneo; mas o que é o fundamentalismo e quando surgiu?            Fundamentalismo é uma palavra que nasceu no contexto religioso do protestantismo em meados do século XIX. Essencialmente, significa que um indivíduo não abre mão dos fundamentos de sua fé e desse ponto de vista todos nós somos, em princípio, fundamentalistas; o problema está em deixar que esse fundamentalismo se transforme em extremismo ou radicalismo. Porém, o fundamentalismo só começou a preocupar o mundo em 1979, quando a Revolução Islâmica transformou o Irão num Estado teocrático e obrigou o país a um retrocesso aos olhos do Ocidente. É o sintoma de uma crise generalizada: crise económica, cultural e de identidade e ainda uma crise de autoridade.
            E que dizer acerca do fundamentalismo ambiental? Todos os dias somos confrontados com notícias aterradoras, relacionadas com o meio ambiente. A população mundial cresceu exponencialmente e tem conseguido sobreviver graças ao desenvolvimento tecnológico na indústria, na medicina, na agricultura, etc. Será este desenvolvimento sustentável?       
            Em qualquer actividade existem riscos: são conhecidos de todos a explosão duma fábrica de produtos químicos em Bophal (Índia), as grandes áreas contaminadas pela agricultura devido ao uso indevido ou não controlado de pesticidas e o acidente nuclear de Chernobyl, entre outros.
            Todavia, o fundamentalismo ambiental poderá fazer-nos cair na tentação de desejar risco potencial zero. Para isso teríamos que fechar todas as indústrias e voltar a viver tal como os nossos antepassados mais distantes. O sistema industrial levou ao limite do tolerável as nossas condições naturais de vida, fazendo passar os predadores por cientistas e os ambientalistas por utopistas. O ambientalismo, porém, não é uma utopia: o que os ambientalistas fazem é lembrar que os recursos naturais são finitos e que a natureza tem regras e equilíbrios próprios que não poderão ser perturbados.

                                                       FNeves




domingo, 15 de março de 2015

DAR PARA NÃO RECEBER

                     



Ajudar os outros dá-nos prazer e enriquece de significado a nossa vida. Sentir que a nossa presença melhora a vida de um ente querido dá-nos uma sensação de preenchimento interior que se traduz na valorização da nossa existência. Sabemos que ser prestável não se limita forçosamente à nossa rede social e prova disso é o número crescente dos que se dedicam ao voluntariado, os quais afirmam que a satisfação que sentem ao ajudarem desconhecidos é, por vezes, ainda mais gratificante.
Parece estranho e até paradoxal sentirmos mais gratificação em auxiliar quem não conhecemos, mas a questão centra-se nas expectativas que criamos. Quando se ajuda alguém próximo, por muito que nos custe admitir, queremos ser retribuídos e, se não o formos, consideramos o outro um ser desprezível. Com desconhecidos, pelo contrário, não esperamos nada em troca, pelo que um simples sorriso, ou um doce olhar, derrete o nosso coração, faz-nos sentir reconhecidos e valorizados.
Precisamos de uma ginástica mental diária para não desanimarmos perante a inércia de um amigo para connosco. Quanto mais altas as nossas expectativas, maior o nível de desilusão. Queremos que nos satisfaçam, exigimos que respondam às nossas necessidades, caso contrário entramos no poço da amargura.
Ora, o voluntariado contribui para enfraquecer o suposto direito que consideramos ter de sermos retribuídos. Ajuda-nos a acalmar os gritos do Ego e a perceber que a felicidade também se encontra em nutrir e praticar valores mais abrangentes, com pessoas indiferenciadas. Praticar ações de voluntariado pode passar por distribuir comida aos sem-abrigo, fazer proezas desportivas a favor de uma associação, ou simplesmente contribuir para a Wikipédia. O importante, para que seja feito com o verdadeiro intuito de desenvolver em nós a tal sensação comovente e enriquecedora de quem não espera nada em troca, é fazê-lo no completo anonimato. Só assim entramos na dimensão que ultrapassa o que é singular e pessoal para nutrirmos algo mais elevado em nós.

Rossana Appolloni

www.rossana-appolloni.pt

quinta-feira, 12 de março de 2015

LEONARDO DE COIMBRA - A LIBERDADE DE ENSINO E A LIBERDADE PELO ENSINO

     

Fará no próximo ano, no mês de Janeiro, oitenta anos que faleceu Leonardo de Coimbra. Para além de filósofo, foi professor e interventor na sociedade, Ministro de Instrução Pública (1919 e 1923). Nesta função criou as Universidades Populares, reformou a Biblioteca Nacional e fundou a Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Como filósofo, o criacionismo começou por ser a sua base doutrinária. Este criacionismo não tem uma conotação biológica ou teológica mas, antes, constitui uma filosofia em que coloca o pensamento como gerador de uma actividade criadora impregnada de liberdade e libertada de determinismos naturais e sociais. Ora, na base dessa actividade estaria a ciência. Duas vertentes poderiam, então, ser consideradas na ciência.
Por um lado, a razão seria a autoridade que, não se movendo ao sabor das modas e das imposições do exterior, iria gerar uma comunidade livre e solidária. Por outro lado, a ciência, mais do que da observação e da experimentação, construir-se-ia a partir das representações mentais que formamos a respeito das coisas e dos fenómenos, num caminho para uma realidade acrescida de sentido. Significa isto que a realidade estruturar-se-ia a partir de um conjunto de noções elaboradas provindas da acção criadora e ilimitada do pensamento.
O conhecimento, segundo Leonardo de Coimbra, projectar-se-ia, então, mediante novas sínteses, de modo a fazer surgir a arte, a filosofia e a religião. Se o pensamento científico se isenta de imposições dogmáticas e contribui para a aproximação do homem ao mundo, dotando-o de uma maior dignidade, então esta dignidade humana exigiria, “para a sua vida essencial de acção moral, a arte, a filosofia e a religião”.
Defendeu a liberdade de ensino e, em consequência, apesar de toda a polémica gerada, a possibilidade de ser administrado o ensino religioso nas escolas particulares fiscalizadas pelo Estado. Mas, acima de tudo, defendeu a liberdade pelo ensino, isto é, o desenvolvimento do aluno nas suas várias facetas, a fim de que ele adquirisse as capacidades e o conhecimento que o tornassem mais autónomo e capaz, como sujeito de liberdade, de tomar as melhores decisões.
Reflicto nesta grande meta do ensino, a do “desenvolvimento do aluno nas suas várias facetas” e pergunto-me: será que só o Português e a Matemática são dignos das preocupações dos nossos pedagogos oficiais, sendo as outras disciplinas ou um resíduo escolar que não deve merecer muita atenção ou simplesmente serem ignoradas (v.g. as artes)?     
         

                                                                      Mário Freire