terça-feira, 30 de dezembro de 2014

EXIGÊNCIA



Quantas fontes de provento
que o poder foi confiscar.
Sem pudor e a seu contento,
as passou a administrar.

Quanto force a evitar
tão injusto tratamento
não somente é de louvar;
foros tem de um mandamento.

Sendo um jus indeclinável
reclamá-lo é louvável;
mais do que isso, obrigação.

Exigência de equidade,
qual direito, é, na verdade,
um dever; mor que uma opção.

João d’Alcor


domingo, 28 de dezembro de 2014

A NEGLIGÊNCIA DE SUPERVISÃO

                                 



            Mais de 12 mil crianças e adolescentes foram sinalizadas em 2013 pelas comissões de protecção de menores por situações de negligência. Esta traduz-se em os pais, ou quem os substitui, não cuidarem daqueles que são menores e que têm a seu cargo. Ela é considerada como uma forma de violência em que o agressor assume um comportamento passivo, de omissão dos seus deveres básicos em relação àqueles que tem a obrigação de cuidar.
De entre as várias formas que a negligência assumiu nos dados que vieram a público (médica, higiénica, física…), cerca de metade das pessoas visadas sofreu a negligência de supervisão. Esta traduz-se em a criança e o adolescente ficarem entregues a si próprios, estando sujeitos a todos os tipos de riscos. Assim, os pais não providenciaram para que os filhos tivessem a necessária frequência escolar, não responderam às solicitações da escola, não participaram na educação dos filhos, não lhes administraram as regras a partir de casa.
Como se sentirá a criança ou adolescente entregue a si próprio? Certamente que mal-amado, com inseguranças e vulnerabilidades. E na escola, como serão estes alunos? Só por excepção eles responderão às solicitações daquilo que o sistema escolar lhes exige. E que tipo de adultos poderão vir a ser estas pessoas?
Na raiz desta negligência estarão, certamente, múltiplos factores, de ordem familiar, social, de toxicodependência…
Note-se que foi a escola, na grande maioria dos casos, a entidade que alertou as autoridades para esta negligência. E é ainda ela, com todas as suas limitações, que se constitui em elemento de ajuda, contribuindo para que estas crianças e adolescentes possam, talvez, ainda, ser elementos onde cintile a esperança de um futuro, melhor do que aquele que estão a viver.


                                              Mário Freire

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

EXERCITAÇÃO




Na ginástica, é normal
dar ao corpo muita atenção.
Que não seja excepcional
alargarmos tal  noção.

Há ginástica da vontade,
exercícios da memória,
trabalho à saciedade
e mil  artes, rumo à glória.

Tem a exercitação
fito que nos desafia
em processo permanente.

Treino para a perfeição,
pode roçar a utopia,
mas digno é, se tido em mente.


João d’Alcor

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

POR QUE SE COMEÇA A FUMAR

                                 


De entre as múltiplas razões que levam o/a adolescente a começar a fumar, elenco três: necessidade de afirmação pessoal, desejo de aceitação pelo grupo e imitação de adultos relevantes.
A necessidade de afirmação talvez tenha a ver com o desejo de influenciar os outros, de ser ouvido. Mas, para isso, há que mostrar que se sabe o que se quer, que se é autónomo. Em princípio, só os adultos fumariam; ser adulto significaria emancipação, controlo da sua vida. Por isso, ao fumar, o rapaz e a rapariga podem querer estar a enviar a mensagem de que são pessoas que sabem ultrapassar as convenções, que são sociáveis, descontraídos e que já têm autonomia.
O grupo de amigos, por sua vez, é tão importante para o adolescente como a família. Eles e elas precisam do grupo para conviverem e desenvolverem as suas capacidades sociais. É aí que começam a forjar-se as lideranças, a capacidade de negociação, o testar das afectividades… As suas ideias são melhores recebidas no grupo do que na família. Ora, se existe uma parte significativa de fumadores/as no grupo, por que estar a destoar dessa maioria?
Quanto à imitação, ela tem lugar em relação a alguém a quem se atribui um estatuto elevado ou que merece a confiança. Imita-se, frequentemente, para reforçar a auto-estima. Pai, mãe ou irmãs/os mais velhos, fumadores, tendem a ser modelos, que mais não seja, no comportamento do fumo, para os seus familiares mais próximos. E os adolescentes, imitando-os, sentem-se, não só desculpabilizados como, também, autorizados a assumir o comportamento que estão a adquirir.
Fumar é, pois, um comportamento que radica em motivações psicológicas e sociais. Conhecer as causas deste comportamento tão difundido entre a juventude pode ser o melhor meio para se ensaiarem as vias de o combater. A família, em primeiro lugar, mas, também a escola seriam as instituições onde esse combate deveria iniciar-se. Será que elas estão capacitadas ou o desejam fazer?


                                                      Mário Freire

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

ESPIRAL



Quando há planta que se enrola
a uma outra mais potente,
cada espira faz de cola,
dando um passo mais em frente.

Uma vez em ‘scadaria,
sempre em torno do mesmo eixo,
a ‘spiral me serve de guia,
rumo a auge o qual não deixo.

Vem-me à mente o parafuso
e a loucura de um tornado:
Obra firme ou destruída.

Há o bom ou o mau uso,
sentido certo ou passo errado,
no A-D-N, na própria vida.


João d’Alcor

sábado, 20 de dezembro de 2014

ESTAR DO MESMO LADO DA BARRICADA

                          


Apareceu há meses na comunicação social uma proposta, feita por uma entidade sindical, na qual se defendia a criação de legislação que permitisse aos encarregados de educação faltar ao trabalho para poderem acompanhar a vida escolar dos seus educandos. Ora, há muitas maneiras de fazer esse acompanhamento. Uma das mais relevantes é, sem dúvida, a participação nas reuniões de pais.
Julgo que muitos pais perdem a oportunidade de conhecer as metas educativas que a escola definiu, alheiam-se da vida da escola, não debatem temas que tocam de perto os seus educandos, por não participarem nessas reuniões. E essa ausência e esse desconhecimento pagam-se, normalmente, caro.
É certo que nem todas as reuniões suscitam interesse. E as razões são várias: tratarem-se nelas problemas individuais (para isso há os encontros com o director de turma); haver alguém que gosta de evidenciar os seus dotes oratórios, monopolizando as intervenções; os temas tratados não serem nem suficientemente motivadores nem importantes; condução menos correcta da reunião.
Não cabe aqui enunciarem-se os comportamentos de um bom condutor de reuniões. Reconheço, no entanto, que uma motivação prévia dos pais sobre a sua importância e a enunciação dos temas a debater, a hora exacta do seu começo e termo e a informação, no seu início, das regras que devem pautar cada intervenção, em muito ajudariam a torná-las eficazes e a chamar mais pessoas a elas.
As reuniões de pais, para além dos objectivos específicos de cada uma, poderiam contribuir, ainda, para pôr do mesmo lado os professores e a família e mostrar aos educandos que os pais não vão à escola só para protestar mas, também, para se informarem e darem o seu contributo na educação que àqueles é oferecida.


                                                                Mário Freire

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

CANTE ALENTEJANO






                                    Ilustração do autor


A declaração do Cante Alentejano como Património Cultural Imaterial da Humanidade foi aprovada pelo Comité Intergovernamental da UNESCO,  em Paris, no passado dia 27 de Novembro. Logo após a feliz decisão, as vozes dos cantadores do Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa fizeram-se ouvir nos espaços da nobre Organização das Nações Unidas para a Educação Ciência e Cultura na capital francesa.
Todos sabemos que, com uma ou outra excepção, por razões óbvias, os media  preferem os grande escândalos.  Casos como o que tem ocupado as primeira páginas na semana que findou, vendem, seguramente muito mais do que esta honraria atribuída à cultura portuguesa. Todos sabemos que é assim e é ingénuo quem pensar o contrário.
Na literatura sobre a gastronomia alentejana encontram-se referências a uma certa associação que sempre se fez entre os comeres e o cante que distinguem esta que é a maior província de Portugal. Não será exagerado dizer que todo aquele que teve o privilégio de ouvir os homens em coro numa das muitas vendas e tabernas, onde os cheiros da cozinha invadem a zona de convívio, não poderá deixar de fazer esta associação. Quem já comeu numa qualquer aldeia do Alentejo e, a dada altura, os homens se levantam e unem num coral, único na museografia nacional e mundial, não pode deixar de ligar os sons e os sabores que ali persistem, como que a fazerem frente à mundialização cultural que nos invade.
Sempre associei os aromas da gastronomia tradicional alentejana aos seus cantares. E isso resulta de uma vivência começada em criança, em finais dos anos 30, quando ia à taberna do Monginho buscar meio litro de vinagre e por lá me esquecia a ouvir os homens, à volta de uma grande mesa forrada de oleado, repleta de petiscos perfumados e de copos de vinho, uns cheios, uns meios, outros vazios. Foi numa destas idas ao Monginho que o «Meu lírio roxo» nunca mais se separou do grão cozido, a fumegar, temperado de azeite e vinagre, com salsa e cebola picadas, que os homens comiam a acompanhar sardinhas de barrica acabadas de fritar, enchendo o espaço do convidativo cheiro da fritura. Esta junção dos cantares, dos comeres e seus odores, tive-a por diversas vezes, na adolescência, de que recordo um fim de tarde, nos anos 50, na venda do Ti’ Zé Calado, na Vendinha, em que se assavam linguiças e farinheiras e se ouvia, cadenciada, «A ribeira quando nasce, vai de pedrinha em pedrinha...». Uma outra vez, foi na tasca do Rabino, em Valverde, num Agosto seco e escaldante, corria o ano de 1964. Foi com os rurais que ali trabalhavam nas escavações da Anta Grande do Zambujeiro e no Cromeleque dos Almendres com o arqueólogo Henrique Pina. E nesta era o coelho frito, temperado de alho e pimentão, e as perninhas de rã de tomatada, ao som do «Deitei o limão correndo...». O aroma e o sabor do toucinho tirado da salgadeira e assado na brasa, comido com pão à navalha e copinhos de aguardente perfumada, saída ainda quente do alambique, na grande adega das Cortiçadas, em São Sebastião da Giesteira, nunca mais se separou do «Ao romper da aurora, sai o pastor  da cabana...»
Uns tempos mais tarde, ainda a «Grândola, Vila Morena», do grande e saudoso Zeca, não tinha a conotação que passou a ter a partir “daquela Madrugada”, os seus belos acordes remataram uma monumental açorda de poejos com bacalhau e ovos cozidos, comida lá para as tantas, para “desenratar” de uma jornada de fartas comezainas e muitos copos nas bodas de um parente.
A última situação que me foi dado viver deste casamento de sabores e cantares teve lugar em finais de 1998, na Pousada dos Lóios, em Évora, durante um almoço oferecido aos participantes do «1º Simpósio Internacional para a Paleobiologia dos Dinossáurios», que tive o gosto de promover, como director do Museu Nacional de História Natural. Uma vintena de cientistas de nomeada, oriundos das cinco partes do mundo, saborearam as belíssimas entradas de paio, presunto e queijos locais e deliciaram-se com o magnífico ensopado de borrego, olhando e sorrindo para nós como que a dizer «que coisa boa!». Começavam eles a regalar-se com a encharcada, bem perfumada de canela, quando um grupo coral de homens e mulheres, envergando os trajes regionais, irrompeu lá no fundo do grande claustro, cantando e marchando, grudados uns aos outros, numa mole humana que se aproximava, lenta e cadenciada, a passo certo, num crescendo de arrepiar os cabelos e trazer aos olhos uma lágrima rebelde: «Olha a noiva, se vai linda...».


 Grupo de Cante Alentejano de Évora, por ocasião do 1º Encontro Internacional de Paleobiologia dos Dinossáurios, na Pousada dos Lóios.



Como alentejano que me orgulho de ser, cantei com eles e desses momentos  conservo na memória os olhos a brilhar da Doutora Angela Milner, do Museu de História Natural de Londres, o ar extasiado do Prof. John Horner, o paleontólogo americano que se celebrizou como assessor científico de Spielberg no inesquecível Jurassic Park, ou o do Prof. Detlev Thies, da Universidade de Hannover. Não esqueço ainda o ar feliz de merecido orgulho do Dr. Abílio Fernandes, um dinossáurio entre os autarcas do pós-25 de Abril, um goês que assimilou, a cem por cento, a maneira de ser e de estar dos alentejanos.
Lisboa, 02 de Dezembro de 2014


                                    Galopim de Carvalho