sábado, 29 de novembro de 2014

EVOCAÇÃO



Recordar é ter acesso
ao arquivo do olvido.
Evocar é um ingresso
ao que fora já vivido.

A memória do passado
faz vivência no presente,
qual erário restaurado
por lavor da nossa mente.

Quando e onde houver História,
os recursos à memória
são motivo de Lição.

Até mesmo a própria Lenda
é, trilhando o que foi senda,
manancial de Inspiração.


João d’Alcor

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

A ESCOLA CONFESSIONAL



A escola confessional baseia os seus princípios, objectivos e algumas das suas práticas numa religião. Em Portugal, as escolas confessionais encontram-se, maioritariamente, ligadas à Igreja Católica. Ora, numa escola, seja ela católica ou não, o seu primeiro objectivo é o de ensinar bem. Para isso, ela terá que ajudar os alunos a conhecerem o mundo, a vida e o homem nas suas relações com ele próprio e com os outros, a desenvolverem capacidades motoras, afectivas e cognitivas, a praticarem valores como os da liberdade, da verdade, da responsabilidade...
Na relação educativa, há a considerar aspectos de transmissão e construção de conhecimentos e transmissão e construção de valores. Ora, relativamente aos conhecimentos em matéria científica, os termos compreender e aceitar poderiam funcionar como sinónimos. Alguém, no seu perfeito juízo, rejeita a lei da gravidade? Acontece, porém, que no domínio dos valores confessionais, nem sempre o compreender significa aceitar. Pode compreender-se o marxismo ou, até, a teoria da evolução e, no entanto, não aceitá-los.
A quem ensina exige-se, então, o cuidado de não impor uma convicção sob a capa de ciência ou, reciprocamente, não induzir alguém a acreditar que a ciência pode ser substituída por uma convicção.
Mas, afinal, o que ensinará a mais uma escola para ser considerada de confessional? Ela terá que pautar a sua intervenção junto do aluno por valores específicos da confissão que representa. No caso concreto da escola cristã, ela deveria desenvolver as suas acções e ter uma visão do mundo e da vida em coerência com o Evangelho de Jesus Cristo.
Teve lugar, há pouco, a Semana Nacional da Educação Cristã. Como cristão, penso que a educação, sendo feita segundo aquela perspectiva, contribuiria para quantos nela estão implicados, saírem para a realidade do mundo, orientando, como se diz na Nota Pastoral a ela relativa, para o pleno desenvolvimento da pessoa, crescimento da solidariedade, da relação fraterna e da responsabilidade pelo bem do próximo. Um mundo melhor, certamente, estaríamos a construir!
         
                                       Mário Freire


terça-feira, 25 de novembro de 2014

ESTRATÉGIA




Medo é arma carregada,
pronta sempre a disparar.
Mecha tem ela instalada,
por quem dele se quer livrar.

Medo do medo eis o tição
que nos cabe retirar.
estratégia, em nossa mão
há e fácil de alcançar.

Mais o medo é ocultado,
mor vai ser o seu enredo:
Pesadelo acumulado.

É remédio, quanto ao medo,
mesmo quando camuflado,
abraçá-lo. - Eis o segredo.


João d’Alcor

domingo, 23 de novembro de 2014

UMA ONDA NO MECO




Escolhido o curso e a candidatura aceite, os alunos chegam à universidade, para iniciar uma nova vida académica.
 O que fazem as universidades – as que merecem esse nome, pois é de supor serem locais de transmissão de conhecimentos adquiridos por toda a humanidade – para integrar, como deve ser, os novos alunos? Algumas designam três dias no início do ano lectivo para a sua integração. É então que os caloiros, acompanhados das famílias, dos namorados e namoradas, etc., participam em actividades comuns, ditas praxes, com vista a uma passagem que se pretende ser “cool” ou melhor, suave, para o novo ambiente estudantil.
Em geral, as praxes têm a sua melhor defesa na ideia de que pretendem constituir-se como  um mecanismo que ajude a integração, mais rápida e simpática, dos mais novos com os mais velhos e com a  universidade. Depois, há a questão das formas que vem assumindo: tem havido  tendências  para práticas do tipo iniciático, o que é perigosamente escorregadio.
Mas poderia não ser assim, com as praxes a desenvolver quer actividades lúdicas, quer actividades de carácter social, por exemplo.          
Ficam as praxes das universidades portuguesas. No código das Praxes da Universidade do Algarve pode ler-se: ” A PRAXE é o saber viver bem todo um percurso académico. Significa o respeito mútuo, a camaradagem, a entreajuda, os cerimoniais, o convívio, a integração num meio universitário, completamente novo para todos os novos alunos. A própria palavra latina PRAXIS significa prática, modo de agir.”
Não é isto que se verifica na maioria das universidades portuguesas: práticas primitivas e insultuosas, para quê? É a isto que se chama em Portugal a integração universitária? Que profissionais serão estes, no futuro? Em que quadro moral de referência habitam e se movem?
Do mais degradante que pode haver. Impressiona o que a vontade de pertença a um grupo leva as pessoas (praxantes e praxados) a fazer.
Quando a onda do Meco se esbater da opinião pública, volátil e errante, lá voltaremos ao orgulhosamente sós …


                                                                       FNeves

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O SUCESSO ESCOLAR VIRTUAL

                                   


Costuma designar-se por insucesso escolar a repetência ou retenção, durante um ou vários anos, ao longo do percurso escolar dos alunos. Isto significa que tais alunos não conseguiram atingir os objectivos que tinham sido estabelecidos para o ano de escolaridade que frequentavam.
Passando por cima das diversas causas que subjazem ao insucesso escolar, diria que há uma outra modalidade de insucesso que se traduz não em retenção mas em transição para o ano seguinte. Trata-se do sucesso escolar virtual que, longe de traduzir uma manifestação de aprendizagem por parte dos alunos, de estes terem alcançados os tais objectivos, eles são “empurrados” para o ano seguinte, depois de terem acumulado uma ou mais repetências.
O que está aqui em causa é uma questão estrutural do ensino que, tentando propor um único (ou quase) modelo (de objectivos, conteúdos, estratégias…) à generalidade dos alunos, vai esquecer outros que, pelas suas especificidades, exigiriam objectivos, conteúdos e estratégias de aprendizagem diferenciadas. Muitos destes alunos teriam maior êxito se lhes fossem proporcionados, por exemplo ou um tempo diferente para a aprendizagem ou conteúdos mais concretos ou estratégias mais participativas e proporcionadoras de maior autonomia, não sendo obrigados, assim, a seguir um modelo único. Note-se que, o que está a propor-se, não é uma utopia mas é já uma realidade em muitas escolas, mesmo em Portugal (v.g. Escola da Ponte).  
Não é com 30 alunos numa sala (ou quase), com as limitações de mobilidade e posturais que isso implica, que um professor consegue dar respostas a estes tipos de situações. Surgem, então, problemas disciplinares, repetências, abandonos. No entanto, se se contabilizasse o dinheiro que é gasto nas consequências deste modelo único (ou quase), nas frustrações que produz em professores e alunos, nos problemas pessoais e sociais que suscita, talvez valesse a pena pensar numa maior individualização do sistema, pelo menos no básico. Porventura, muito do sucesso virtual passaria a real e, acima de tudo, haveria uma maior humanização do ensino e uma maior eficácia na aprendizagem.


                                        Mário Freire

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

ESTIMA




Nosso apreço por alguém
fica bem ser expressado.
Muito perde sempre quem
nisso mesmo é descuidado.

Expressá-lo com estima
meio caminho é já andado.
Outro meio, posto em cima,
é o ser reciprocado.

Qual direito e qual dever,
junta o dar ao receber,
tudo a ser bem conjugado.

Posto isto em equação,
surge da supra-união
o amor centuplicado. 

João d’Alcor 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

AROMAS E SABORES DO ALENTEJO -2





Do inverno da minha infância e primeira adolescência guardo o cheiro da lareira, quer o do grande lenho de azinho que ardia lenta e a fumegar, ao centro da chaminé, arrumado à “boneca”, quer do que vinha agarrado às farinheiras, linguiças e chouriços retirados das varas do fumeiro. Recordo o cheiro do café de mistura a exalar na cafeteira de barro e do som do chiar da brasinha que se metia lá dentro para fazer assentar a borra ou o “pé”, como dizia a minha avó. Recordo o cheiro da “matula”, um trapinho, dos que ficavam da costura, embebido nos restos do azeite de fritar e que se punha, logo pela manhã, a arder no meio dos carvões na fornalha a fim de acender o lume. Era o mesmo cheiro da lamparina de azeite que a minha avó e a minha mãe acendiam às santas das suas devoções sobre as cómodas nos quartos de dormir.
Coincidentes no essencial, as muitas referências à cozinha alentejana convergem num elogio a uma comunidade muito particular, bem caracterizada, não só pelo valor cultural da sua gastronomia, como pela sua ligação à terra no trabalho e no lazer, com grande destaque para o seu cante, pérola única na museografia portuguesa.
O pão e o azeite, o porco e o borrego, as ervas e os cheiros, são as marcas mais significativas da gastronomia desta que é a maior região natural do país, a que Estrabão, o grande geógrafo grego dos finais do século I antes de Cristo, reconheceu como o paraíso das ervas frescas.

No Prefácio de “O Comer dos Ganhões. Memórias de Outros Tempos”, de Falcato Alves, editado por Campo das Letras, Porto, em 1994, Hélder Pacheco é mais um a denunciar a condição de gente explorada dos camponeses do Alentejo, ao escrever que enganam a «magreza do caldo com ouropéis mágicos de ervas, cheiros e misturas que dão sabores disfarceiros das pobrezas» e a lembrar os «comeres frugais feitos de coisas simples do dia-a-dia e do que as pessoas tinham à mão». E porque ervas e cheiros foram bens que a natureza nunca lhe negou, o alentejano aprendeu a usar produtos simples e pobres na feitura de confecções aceites como uma manifestação cultural cada vez mais divulgada e reconhecida. Como dizia o professor Orlando Ribeiro, para os alentejanos, «comer foi, acima de tudo, encher a barriga e iludir a sensação de fome» e a fome, como todos sabemos, aguça o engenho. Sem qualquer conduto a “açorda de mão no bolso”, como lhe chamei, só precisava da mão que levava a colher à boca, matava a fome e alegrava a casa com os saborosos aromas do alho e dos poejos.
Mercê de uma atitude cultural mais esclarecida e alargada, no decurso das últimas décadas, e como resultado de apoios e encorajamentos vários, a cozinha alentejana de hoje está, felizmente, a retomar a sua condição de cozinha rica na variedade dos produtos naturais utilizados e nas maneiras de os confeccionar.
Imagem de uma terra de grandes planuras e lonjuras, queimadas pelo sol de Verão e pelas geadas de Inverno, e de aldeias e montes brilhantes na luz da cal, a gastronomia alentejana tem sido uma nota particularmente resistente ao tempo e às influências que constantemente lhe chegam do exterior, representando um património etnográfico de grande valia. Com efeito, as confecções culinárias alentejanas, algumas com mais de mil anos, na sua singularidade e intemporalidade, sobreviveram e afirmam-se no presente, sem perda de identidade, sendo hoje um importante recurso em termos de oferta turística.
É esta mesma cozinha que está a ser servida pelos restaurantes não só do Alentejo como por alguns fora dele, em resposta a uma clientela conhecedora, em crescimento, a testemunhar o sucesso reconhecido deste renascer a que felizmente se assiste. Em contraste com este esplendor da cozinha que criaram, muitos alentejanos, nos campos e nas cidades, começam, de novo, a pôr menos azeite nas açordas e menos febras nas migas, substituindo-as por toucinho e farinheira, mas o essencial dos aromas e dos sabores continuarão a ser os mesmos.
Num tempo social preocupante que estamos a viver, agravado por carências e necessidades amplamente apontadas, a cozinha alentejana, experiente de um passado de dificuldades, vai continuar a tirar proveito dos produtos alimentares ao seu alcance, onde, para além dos que se podem produzir, há todos os que a terra nos oferece e, entre eles estão as beldroegas, as acelgas e as labaças, os cardos, os espargos, as cilarcas e uma variedade de cheiros, com destaque para os dois muito nossos, o poejo e a hortelã da ribeira, tantas vezes usados no propósito de compensar a falta de condutos.


                                               Galopim de Carvalho