quinta-feira, 13 de novembro de 2014

ESTÍMULO




Onde falta a compaixão,
face a erros cometidos,
tudo apela à correcção.
Só castigos são devidos.

Ao invés, bom coração,
longe de acento no defeito,
o transforma em lição,
sendo o bem que tem a peito.

Mor que o mal a detectar,
algo bom a estimular
sempre encontra nos demais.

Terapia do louvor,
radicada no amor,
há que usá-la, mais e mais.


João d’Alcor

terça-feira, 11 de novembro de 2014

AROMAS E SABORES DO ALENTEJO - 1





Com aromas e sabores trazidos, entre outros, pelos ocupantes romano e visigótico e, depois, pelo invasor muçulmano, a cozinha do Alentejo, a par dos seus cantares, é uma expressão cultural bem conhecida e hoje devidamente apreciada. O povo que aqui se fixou, mistura dos que por aqui passaram ou aqui se instalaram durante séculos, descobriu e aperfeiçoou, ao longo de gerações, “comeres” que foram transformando o simples acto de ingerir os alimentos, num outro marcado pelo prazer dos sentidos enriquecido pelo da convivência.
Como lembrou o saudoso Alfredo Saramago no seu livro “Gastronomia do Alentejo. Concurso de Cozinha Alentejana — As Melhores Receitas”, editado pela Câmara Municipal de Évora, em 2001, desde muito cedo, o alentejano entendeu que comer era, não só, um acto necessário e imperativo de sobrevivência, como também uma forma superior de contentamento e é por isso que, quase sempre, há cante no começo, a meio ou no fim das suas confraternizações à mesa.
São muitas as referências aos aromas e aos sabores da cozinha alentejana e uma delas, testemunho de um profundo conhecimento do tema, é a que saiu da pena do meu conterrâneo e amigo, Manuel Fialho, no livro que publicou em 1992, “Cozinha regional do Alentejo”, editado pela Europa-América, onde se lê: Aproveitando ao máximo a riqueza dos seus recursos e sabendo compensar com extraordinária habilidade as suas limitações, o alentejano criou uma cozinha única, sólida, nutritiva e surpreendentemente saborosa, que não é mais, afinal, do que o espelho fiel da sua própria maneira de ser.
Uma outra afirmação de idêntico teor, fê-la Monarca Pinheiro em “Terra de Grandes Barrigas Onde Só Há Gente Gorda”, Editora Alentejana, Évora, 1999, referindo-se ao alentejano e à sua tradição regional, escreveu a curta frase que diz tudo, do pouco, soube fazer muito e bem.
Não desejando afirmar-se nem melhor nem pior do que a generalidade da rica cozinha tradicional portuguesa, a que temos no Alentejo é, quanto a mim, substancialmente diferente. Como qualquer alentejano da minha geração, cresci num tempo em que a confecção dos alimentos tinha por base o lume de chão na grande chaminé, o do fogão de lenha, ou o de carvão, na fornalha ali instalada, sem o suporte conserveiro da arca congeladora, então sabiamente substituída pela salgadeira, numa tradição milenar, e sem frigorífico, obrigando, sobretudo, as mulheres a cozinharem todos os dias. Sem a utilíssima panela de pressão e sem os múltiplos equipamentos da cozinha do presente, fazer almoços e jantares era tarefa de muitas horas no dia dessas mulheres. Foi um tempo em que a cozinha era, em muitos lares, a casa de entrada, de porta sempre aberta durante o dia, como única fonte de luz, e sala de todos os usos, em que a mesa de comer era a mesma em que também se faziam os trabalhos de casa, a mando do professor. Da cozinha da minha infância, para além do mobiliário rudimentar, do poial dos cântaros, do poço com água fresca e um tanto salobra, e de duas oleogravuras, uma do Gago Coutinho e Sacadura Cabral, com o Lusitânia entre eles, e outra da implantação da República, ficaram-me na memória os aromas e os sabores da culinária alentejana. A carne de porco frita em banha, depois de temperada de alho e pimentão, a canja de galinha, as sopas da panela com hortelã, as de tomate no pingo do toucinho e da linguiça e as de cação envinagradas e a libertarem o cheiro dos coentros, a açorda de poejos, as sardinhas de barrica fritas no azeite e as torradas com toucinho cozido, pela manhã, exalavam aromas inconfundíveis e são lembranças de paladares inesquecíveis que não posso deixar de associar aos cantares dos homens que, muitas vezes, na taberna da vizinhança, aos fins de tarde de sábado, se abriam em coro polifónico e trocavam boa parte da magra féria por copos de vinho e petiscos para fazer boca. O pão que então se comia, por tradição e em quantidade, era de trigo ceifado nos nossos campos e tinha ciscos na base trazidos do solo do forno de lenha, ciscos que era preciso raspar antes de cortar as fatias de ir à mesa. Era um pão muito diferente do que hoje se fabrica em fornos eléctricos ou a diesel, em grande parte com trigo importado, sabe Deus se já geneticamente manipulado. O queijo de ovelha, o branco de meia cura e, em especial, o curado, amarelinho e a ressumar olhinhos de gordura, cortados em lasquinhas, à navalha, eram conduto perfumado desse pão-nosso de todos os dias.

                                               Galopim de Carvalho

domingo, 9 de novembro de 2014

VOLTAR PARA CASA. MAS PARA QUÊ?





Leio num artigo do “Público” de 30 de Setembro de 2013 que “a exposição a comportamentos que comprometem o bem-estar da criança, sobretudo a situações de violência doméstica, continua a ocupar o primeiro lugar das problemáticas identificadas pelas comissões de protecção de crianças e jovens.” Muitas outras crianças e adolescentes não têm a supervisão adequada, ficando entregues a si próprios. Ora, são estas pessoas, cerca de 8500 em 2013, os maiores contribuintes das instituições que os acolhem.
Conheço razoavelmente os sofrimentos destas crianças e adolescentes e de quanto esses sofrimentos têm tradução não só nas aprendizagens escolares como nas suas personalidades.
A maior parte deles manifesta um grande desejo de voltar para a casa dos pais. Acontece, porém, que muitos destes se encontram separados e sem as mínimas condições económicas de os receber; outros, por efeitos de dependências de vária ordem e de desestruturação familiar também não reúnem as condições mínimas de acolhimento. Apesar das visitas dos familiares, esta ausência da casa traduz-se, numa angústia que os faz sofrer e numa revolta.
As datas comemorativas que tenham a ver com a família, como o dia do Pai, o dia da Mãe, o Natal, são, normalmente, motivos de alegria e a escola, e bem, dá a oportunidade à criança de fazer algum desenho para levar para casa. Estas datas, porém, para aquelas crianças e adolescentes que não podem estar com a família, apesar de as instituições tentarem minorar a sua ausência, traduzem-se em momentos de sofrimento.   
Pois são todos estes traumas, dos que resultaram da separação parental e dos que viveram no lar a que, por vezes, se lhes adiciona o estigma da discriminação dentro da escola, que fazem ferida na alma à maior parte destas crianças e adolescentes e que lhes provoca quer a desmotivação no estudo, quer a revolta.
Muitos destes alunos constituem, pois, um grande desafio, quer para os professores, quer para o sistema de ensino, de modo que se possam encontrar para eles as melhores vias para se realizarem como pessoas, como profissionais e como cidadãos.


                                        Mário Freire

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

ESMOLA




Dando aos pobres a Deus se empresta,
se na esmola é posto o amor.
Fora dele será sempre esta
ofensiva em seu teor.

Servir-se dela para obter
é negócio descarado,
em que a culpa e o haver
fazem jogo combinado.

Vem do dolo do mercante
haver gente mendicante
sem abrigo e sem pão.

Recupera, a cem por cento,
quem partilha seu sustento,
vendo em outrem seu irmão.

João d’Alcor


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

UM MONUMENTO À GEODIVERSIDADE E À BIODIVERSIDADE DOS AÇORES




 Acaba de ser editada pelo Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores (OVGA), sob a direcção de Victor Hugo Forjaz, Professor Catedrático Jubilado da Universidade dos Açores, a obra de que se reproduz a capa.




                                        Ilha do Pico, numa gravura de 1819

Em formato A4 deitado, com capa em cartão, com 400 páginas profusamente ilustradas, a cores, regista, em capítulos individualizados: a Geologia, a Zoologia e a Botânica da ilha mais recente e a mais enigmática do arquipélago açoriano, acompanhados por um preâmbulo histórico-geográfico-climatológico.
Os autores do livro são vulcanólogos, biólogos, climatologistas, cartógrafos e técnicos de geologia.
A obra, ao preço de 22,00€, pode ser adquirida na sede da OVGA, Av. Vulcanológica, nº 5, Atalhada, Lagoa – São Miguel.
ou pedida pelo telefone 96 241 48 77, ou por E-mail «vforjazovga@gmail.com»



         Não é comum ver a totalidade do vulcão do Pico.





        As mais das vezes esconde-se atrás das nuvens.


                                         Galopim de Carvalho

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

PODER E AUTORIDADE NA SALA DE AULA

                         

Nos inícios dos anos 60, altura em que iniciei a minha carreira, sentia que a sociedade respeitava o professor e como esse respeito se transmitia aos pais e aos alunos. Não era difícil ser-se professor do liceu naquela época! A abertura da escola à sociedade estava muito longe de ser aquela que hoje, felizmente, é. Alunos oriundos de meios sociais problemáticos praticamente não existiam. A disciplina dentro da escola e da sala de aula era mantida sem esforço e sem sobressaltos.
Diria que naqueles tempos o poder e a autoridade se confundiam, isto é, o professor, com o poder que possuía, tinha a capacidade de influenciar os comportamentos dos alunos mas estes também reconheciam naquele essa mesma capacidade de serem influenciados, isto é, reconheciam-lhe autoridade. Aquele, na prática, apenas se preocupava com os conteúdos científicos dos programas e com as estratégias pedagógicas mais adequadas.
Ora, nos dias de hoje, devido à transformação profunda que se operou na família e na sociedade e no acesso de todas as camadas sociais à escola, o papel do professor, sem deixar de ter em conta os aspectos científicos e pedagógicos, tem que os subordinar ao modo como gere as relações, por vezes, complexas, com os alunos. E essas relações são determinantes no poder que os alunos atribuem ao professor, isto é, na autoridade que lhe é conferida.
O professor pode ter o poder de pôr os alunos fora da sala de aula, de reprová-los ou passá-los de ano mas não conseguir que seja reconhecida por eles a sua autoridade para os ensinar, para os ajudar a crescer. Ora, sem a autoridade do professor não pode haver ensino capaz nem aprendizagem com significado. A perda da autoridade do professor tem causas várias, começando, desde logo, por aquelas que residem no poder político. E tem consequências devastadoras para o professor, para as famílias, para o aluno e, principalmente, para a sociedade. Valeria a pena um debate, diria mesmo de âmbito nacional, para discutir este grande problema da sociedade portuguesa, mas que também ultrapassa fronteiras.


                                                            Mário Freire

sábado, 1 de novembro de 2014

ERRANDUM





É o erro aliado ao humano
sendo que no pretender
não errar há puro engano.
Erro é forma de aprender.

O tirarmos dele partido
e tentá-lo corrigir
lema é que faz sentido,
no pensar e no agir.

Vem o aspecto vergonhoso
duma crassa recaída,
se dele não se arreda pé.

De crer é no erro honroso
relativo a quem, na vida,
o pratica em boa fé.


João d’Alcor