terça-feira, 14 de outubro de 2014

EQUIDADE





Só pra poucos, o muito haver?
Má fé mostra um tal provento:
Gera em muitos o pouco ter,
dando isso azo ao lamento.

Da avareza nasce o dolo
gerador de escravidão.
Ser escravo, mas não tolo,
faz pensar na solução:

Sendo o muito para poucos,
sanatório p’ra tais loucos
obra é de caridade.

Face ao pouco que há pra muitos,
tenham estes, em seus intuitos,
implantar à equidade.

João d’Alcor



domingo, 12 de outubro de 2014

“O VALOR DA EDUCAÇÃO - TRAMPOLIM PARA O SUCESSO”





            Este é o título dum estudo apresentado já este ano, resultante de um inquérito feito pela HSBS e realizado junto de pais de alunos de 15 países de todos os continentes, excepto África. Refira-se que a HSBS é uma das maiores organizações de serviços financeiros e bancários do mundo.
Referir-me-ei, apenas, nas considerações que se seguem, ao subtítulo – springboard for success - trampolim para o sucesso. Esta última palavra, sem estar adjectivada, deixa-me uma certa ambiguidade. Que sucesso é este? É ganhar muito dinheiro? É ser o primeiro na empresa? É ser conhecido por muita gente? É ter um grande poder? Mas quantos daquelas e daqueles que tiveram este tipo de sucesso resolveram largar tudo o que faziam para se dedicarem a uma outra vida radicalmente diferente da que levaram?! E quantos outros, até, largaram a própria vida?!
            Julgo que o valor da educação não é o de proporcionar o sucesso, tal como o associamos ao de uma pessoa ser influente e vencedora. O grande valor da educação é o de abrir horizontes nos vários ramos do saber, proporcionando um enriquecimento pessoal em diferentes domínios, suscitando em cada um o exercício da liberdade da escolha, entre os múltiplos caminhos que se lhe apresentam. E é nas escolhas desses caminhos que podemos tentar compatibilizar as necessidades pessoais com a realização profissional e as exigências de serviço à sociedade.
            Nos dias que correm, nem sempre esses caminhos abundam; contudo, são as pessoas que maiores qualificações possuem que têm a possibilidade de criar um trabalho que lhes abra a porta para o que desejam fazer na vida ou de o ir procurar onde ele existe, mesmo fora do País. Se a educação que se pretende alcançar é a que proporciona a compatibilização atrás referida, poderei, então, concordar que ela seja um trampolim para o sucesso.


                               Mário Freire

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

AS MOCHILAS ESCOLARES, UM GRAVE PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA



O mal não está nas mochilas, uma inteligente invenção para transportar cargas, por vezes com duas ou mais dezenas de quilos, deixando as mãos livres para tudo o que for preciso, apoiar o caminheiro segurando um varapau, tocar pífaro ou harmónica durante a marcha ou, até, caminhar de mãos nos bolsos.
Como campista de ocasião que fui, no tempo em que se podia, em segurança, praticar esta modalidade em regime selvagem, reconheço a imensa comodidade da mochila, sobretudo quando ela está equipada com uma armação de metal que torna o seu uso mais confortável. Mas uma coisa é um rapazinho ou uma rapariguinha de dez ou doze anos transportarem uma mochila carregada, durante umas horas de caminhada, uma, duas ou três vezes por ano, como campistas em tempo de férias escolares, outra coisa, é carregarem-na cheia, até mais não, de livros, cadernos e tudo o mais o que a escola determina, duas vezes, todos os dias, durante meses.
            É um atentado contra a saúde futura destas hoje crianças, suficientemente denunciado por profissionais conhecedores dos riscos desta prática. Lamentavelmente, não vejo quaisquer tomadas de posição oficiais para pôr cobro a esta estupidez. Não vejo ninguém com competência e poder institucionais levantar a voz contra esta prática. Nem vejo os pais mobilizados para promoverem a petição, que se impõe, dirigida à Assembleia da República.
No tempo da minha geração, das que a antecederam e das duas ou três que se seguiram não havia tanto livro e os que havia não eram tão grandes e pesados. Os cadernos eram pequenos, nada comparáveis aos dossiers A4 dos nossos filhos e netos, nem se usavam estes “cadernões” de agora, um por disciplina, onde os alunos têm de cumprir os trabalhos de casa, que, uma vez usados, não servem ao irmão que se segue nem a quem deles necessite. E as pastas eram, comparativamente pequenas, a condizer. Isso não impediu que estas gerações atingissem os níveis de competência profissional e cultural que atingiram.

Num País onde, com honrosíssimas excepções, a corrupção é uma desgraçada, vergonhosa e triste realidade, é-me lícito perguntar se não haverá por aí interesses escondidos.

                                                   Galopim de Carvalho


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

UMA METÁFORA AMBIENTAL




A palavra metáfora vem do grego, metaphorá que significa "meta" (além) mais "phorein" (transportar de um lugar para outro). Tem a conotação de transportar o sentido literal de uma palavra ou frase, dando-lhe um sentido figurado.
A metáfora que a seguir transcrevo, faz-nos reconsiderar a utilização que todos nós fazemos dos recursos ambientais.
“Uma mulher com sete filhos, passava o tempo a lastimar-se do seu infortúnio e das dificuldades que constantemente atravessava. Num dia de grande desespero, surgiu-lhe um anjo que lhe entregou um saco muito grande e lhe disse: ‘Despeja para dentro deste saco todos os teus problemas, mágoas e dificuldades’; levou-a então consigo até ao céu, transportando também o saco acabado de encher. Quando chegaram, a mulher ficou espantada. Lá bem no alto, em vez de encontrar um local aprazível deparou-se com um espaço muito grande, cheio de sacos, parecidos com o seu. Então o anjo disse-lhe: ‘Abandona o teu saco, vai ver os outros e leva, depois, contigo aquele de que mais gostares’.
Ao abrir os sacos a mulher verificou, admirada, que também estes continham coisas desagradáveis, semelhantes às suas.
Ao chegar a um saco que lhe parecia o último esvaziou-o por completo, separou o seu conteúdo e começou arrumá-lo de um modo mais adequado. E, depois, de o ter enchido de novo de uma forma organizada, gostou dele, pareceu-lhe mais leve e disse que o levava consigo de volta. Só então reparou que este saco que acabara de arrumar e lhe parecia mais leve, afinal… era o mesmo saco que tinha trazido!”

Esta metáfora oriental leva-nos a concluir que quando se esvazia um saco e se identifica o conteúdo, aprendendo depois a organizá-lo o saco torna-se, então, mais leve. Organizemos o conteúdo do saco dos problemas ambientais e poderemos verificar que a sua resolução se vai tornando mais fácil podendo, desse modo, conjuntamente com as entidades responsáveis, contribuir duma forma mais eficiente para o grande desígnio que é a protecção da natureza.

                                                     FNEVES


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

EQUAÇÃO


Quando um mal nos atormenta,
 faz tão bem desabafar:
Se era cento, nem cinquenta,
dele o peso vai ficar.

Já no campo da alegria,
se a soubermos partilhar,
tem no acto a garantia:
Passa logo a duplicar.

Fica a mente em confusão:
Face ao dito, põe seus quês;
Erros vê de palmatória...

Por seu lado, o coração
Equaciona o ser cortês.
Tabuada é outra história!

João d’Alcor





sábado, 4 de outubro de 2014

BOLO DE CHOCOLATE COM LIMÕES ?!


Quando nos preparamos para fazer um bolo parece-nos óbvio controlar primeiro os ingredientes que temos. Querer um bolo de chocolate quando o único ingrediente à disposição capaz de proporcionar sabor são limões é uma situação compreensivelmente absurda. Mas além do ingrediente principal (neste caso, o chocolate), precisamos de saber igualmente que outros ingredientes temos que nos ajudam a preparar o bolo: o tipo de farinha, o tipo de açúcar, os ovos dentro do prazo, depois ainda algum equipamento necessário (batedeiras, etc.), o forno adequado, enfim… pode não ser tarefa fácil, sobretudo se não temos nada do que é necessário para cozinhar o bolo de chocolate tal como o queríamos.
Ora, com o ser humano passa-se a mesma coisa. Nós somos um conjunto de ingredientes dotados de certas ferramentas capazes de construir relações e realizar sonhos. No entanto, antes ainda de definir o tipo de bolo/objetivo que queremos, temos de conhecer os ingredientes: quais são necessários e se os temos ou não. Grande parte das nossas frustrações nasce precisamente desta incongruência entre os objetivos estabelecidos e as ferramentas ao nosso dispor.
O primeiro passo é, portanto, o autoconhecimento: conhecer os nossos ingredientes e como funcionamos, caso contrário passamos a vida a querer bolos de chocolate quando só temos limões. O autoconhecimento é uma fase extremamente difícil, razão pela qual muitas pessoas fogem dela, preferindo continuar a viver na ilusão de terem o chocolate.
O segundo passo é a aceitação: não podendo fazer bolos de chocolate só com limões, em vez de vivermos na revolta de não termos chocolate, é mais sábio aceitarmos que também se podem fazer bolos com limões. Não será igual, mas será o que nos é possível. E provavelmente o resultado será surpreendente! Porém, aceitar não implica resignar-se. Uma atitude de resignação seria não fazer bolo nenhum. Aceitar significa tomar parte ativa da solução perante a situação tal como ela se apresenta. Só depois de conhecermos e aceitarmos o que temos é que podemos então elaborar o bolo. E garanto-lhe que, para si, será o melhor do mundo!

                                            Rossana Apolloni


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

ANTÓNIO AURÉLIO DA COSTA FERREIRA - UM PEDAGOGO A RECORDAR





            Numa altura em que está prestes a comemorar-se mais um aniversário da Implantação da República, é justo recordar este ilustre pedagogo.  Fez no passado dia 14 de Julho 92 anos que ele se suicidou com, apenas, 43 anos. Escrevia ele no jornal O Tempo, em 25 de Março de 1911: “Não é só útil aquele ensino que visa fornecer conhecimentos de imediata aplicação”. Ele devia visar também “criar um espírito científico, cultivar faculdades e aptidões, ensinar a observar, a experimentar, a raciocinar, a fomentar o espírito crítico, criar olhos para verem, mãos para trabalharem, cérebros para pensarem, para que os cérebros, olhos e mãos caminhem juntos e livremente”.
            António Aurélio da Costa Ferreira nasceu em 1879, no concelho do Funchal. Foi para Coimbra, tendo-se licenciado em Filosofia. Inscreveu-se, a seguir, em Medicina, tendo concluído este curso em 1905.
            Foi como educador e antropólogo que se notabilizou. Desempenhou, como educador, a partir de 1911, o cargo de Director da Casa Pia de Lisboa e aí teve um papel importante, tendo norteado a sua actuação dentro dos princípios da “Escola Nova”. Assim, concedeu às crianças e adolescentes a liberdade para que eles pudessem escolher, de acordo com as suas capacidades, as artes e os ofícios. Incentivou, igualmente, as aulas de trabalhos manuais, música e desporto.
Ele considerava a psicopedagogia como fundamental na formação de professores de crianças com e sem necessidades educativas especiais. Entendia, ainda, que o professor deveria visar o desenvolvimento de todas as capacidades do educando, sendo a escola o espaço que melhor contribuiria para apetrechar o aluno para o trabalho, para a vida, para a cidadania. Para isso, ao professor não bastava ensinar a ler, escrever e contar.
Costa Ferreira foi o pedagogo que, no início do século XX, preconizou que nenhuma criança, por maiores dificuldades que apresentasse, poderia deixar de ter acesso à educação. Uma das suas obras mais importantes no domínio da educação é Algumas lições de Psicologia e Pedologia, editada em 1921.
Na actividade política, foi deputado e ministro. Saiu, no entanto, desiludido da política activa. Atribui-se-lhe a seguinte frase: “Fui ministro. Foi esta a maior honra que alcancei, o maior sacrifício que fiz e o maior desgosto que até hoje experimentei. Hoje, em face do que para aí vai, não me contento já com não voltar a ser ministro; não quero ser político”.


                                                        Mário Freire