domingo, 15 de junho de 2014

ENALTECIMENTO


Ânsia de se enaltecer
vem da fome de aprovação.
Fome é esta não do ser,
alheio este à presunção.

Privação há sempre no ter,
quando escravo da ambição,
face à qual, se pode ele ver,
em profunda prostração.

Na carência de homenagem,
se perdeu dela a noção:
Passa o rico a ser mendigo.

Pois criado à diva imagem,
honor dado é de antemão:
À partida, enaltecido.


João d’Alcor

sexta-feira, 13 de junho de 2014

SABER LER OS SINAIS


            Em crónica anterior referia-se a importância que pode ter na aprendizagem o comportamento do professor, a partir daquilo que ele vai observando no aluno. Ora, este está constantemente a enviar ao professor sinais que devem suscitar naquele ou a confirmação do caminho adequado ou a necessidade de reorientar os seus procedimentos pedagógicos. Para perceber estes sinais basta estar atento quer ao comportamento do aluno na sala de aula, quer ao rendimento da turma.
            Quantas vezes é a falta de leitura dos sinais por parte de um conferencista, em relação a um auditório, que torna a sua mensagem praticamente inútil? Bocejar, mexer-se continuamente na cadeira, olhar para cima ou para o lado, falar com outros, ver as horas…, eis um sem número de sinais que, assumindo uma frequência crescente, devem fazer o conferencista reorientar o seu discurso, quer mudando de tom ou de intensidade, quer introduzindo uma nota discordante com o que estava a ser transmitido, quer reduzindo a extensão do seu discurso…
            Ora, muitos destes sinais e outros têm lugar na sala de aula por parte dos alunos, principalmente se o professor se assume, quase exclusivamente, como elemento central da lição.
Numa altura em que a interacção faz parte da identidade do aluno, em que somos bombardeados por informações via TV, rádio, internet, emails, mensagens no facebook, twitter…, vivemos num estado a que os peritos chamam de CPA — continuous partial attention. Ora, este estado conduz a que, com dificuldade, dediquemos totalmente a atenção a uma tarefa que seja importante.
Cabe, pois, ao professor, seja ele do básico, secundário ou superior, mas também ao palestrante, padre durante a homília, etc., adequarem as suas mensagens aos públicos destinatários, caso não queiram que estas não só se convertam em objectos inúteis como se voltem contra quem as emitiu!


                                            Mário Freire

quarta-feira, 11 de junho de 2014

AS EMOÇÕES NEGATIVAS SÃO POSITIVAS!


Um dos elementos fundamentais para uma pessoa se sentir feliz é viver emoções positivas. Usufruir do prazer e da alegria através de atividades que nos fazem sentido e enriquecem a nossa vida em termos de significado contribui enormemente para nos sentirmos bem pela vida que escolhemos.
No entanto, ser feliz não implica vivermos num estado permanente de prazer e euforia, nem requer a experiência constante de emoções positivas. As emoções negativas e o sofrimento são constituintes inalienáveis da condição humana, pelo que é extremamente importante aceitar que elas fazem igualmente parte de nós. Recalcar as emoções negativas é negar parte da nossa condição. Se estamos tristes porque recebemos más notícias de um familiar ou de um amigo não significa que não somos felizes, significa apenas que somos vulneráveis.
Para vivermos na plenitude da nossa condição não precisamos de andar sempre com um sorriso nos lábios, precisamos sim de experimentar o rico e vasto leque das emoções que definem a nossa humanidade. Quanto mais retrairmos a aceitação das emoções negativas mais nos fechamos à plenitude das emoções positivas. Quando reprimimos a tristeza, o medo ou a indignação estamos a desvalorizar a nossa própria complexidade para sentirmos alegria, deslumbramento ou gratidão.
Ninguém consegue ter uma vida emocional preenchida apenas com momentos positivos e exaltantes, a não ser que se esteja a enganar a si própria. Claro que, para nos sentirmos felizes, a dor e o sofrimento devem ser a exceção e não a regra. Temos de sentir em consciência, apesar de todas as dificuldades e contrariedades, que a vida vale a pena ser vivida e que os períodos negativos são passageiros, inevitáveis mas ultrapassáveis. Neste sentido, as emoções podem ser vistas todas como positivas na medida em que nos humanizam. Reprimi-las é não nos permitirmos ser o que verdadeiramente somos.

                                                 Rossana Appolloni


domingo, 8 de junho de 2014

A PROPÓSITO DO DIA DO GEÓLOGO


Sem desprimor para os pioneiros da geologia portuguesa, com destaque para Carlos Ribeiro (1813-1882), Nery Delgado (1835-1908) e Paul Choffat (1849-1919), ilustres geólogos dos saudosos Serviços Geológicos de Portugal, hoje Laboratório Nacional de Energia e Geologia, devemos ao Prof. Carlos Teixeira (1910-1982), catedrático de Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa e fundador da Sociedade Geológica de Portugal, as primeiras tomadas de posição pela valorização da geologia e pela dignificação de profissão de geólogo.
Responsável, em Lisboa, por uma plêiade de geólogos, criou-lhes as condições que lhes permitiram distribuir-se pelo país e pelas então colónias, uns no ensino superior, outros no liceal, outros nos diversos serviços públicos e outros ainda na actividade privada. Os seus “filhos”, entre os quais me incluo (a sofrerem as agruras a que foram violentados os pensionistas deste desgovernado país), e os de outros mestres, em Lisboa, em Coimbra e no Porto, deram-lhes “netos” e “bisnetos”, hoje devotados profissionais no activo como docentes ou como geólogos de todo o terreno, que não sendo muitos, não são assim tão poucos. Ao contrário de biólogos e arqueólogos temos de convir que nós, os geólogos portugueses, não temos sabido “defender a nossa dama” e as justificações ao nosso alcance são muitas e facilmente explicáveis.
Para além do interesse utilitário da geologia na procura, exploração e gestão racional de matérias-primas minerais metálicas e não metálicas, indispensáveis no mundo actual, a geologia ensina-nos, ainda, a encontrar águas subterrâneas e recursos energéticos, como são, entre outros, o carvão, o petróleo, o gás natural e os campos geotérmicos. Essencial no estudo da natureza dos terrenos sobre os quais há que implantar grandes obras de engenharia (pontes, barragens, aeroportos), a geologia dispõe dos conhecimentos necessários à utilização do solo, à defesa do ambiente natural, numa política de desenvolvimento sustentado, e à preservação do nosso património mais antigo.
Para além destas potencialidades, a geologia dá resposta a muitas preocupações de carácter filosófico. Na história do pensamento científico, da Antiguidade aos dias de hoje, são muitos os exemplos de filósofos, alquimistas, naturalistas e, por último, geólogos, que se destacaram nas referidas preocupações.
Face as estas capacidades, a Geologia e as diversas disciplinas que a integram (Mineralogia, Paleontologia, Vulcanologia, Sismologia, Hidrogeologia, Geotecnia, entre outras) e nos permitem conhecer o mundo em que vivemos, acabaram por conquistar, em muitos países, estatuto de ciências de grandeza compatível com a sua real e grande importância no desenvolvimento sustentado, o que não é o caso em Portugal, onde permanecem subalternizadas nos currículos escolares e continuam arredadas da cultura geral dos portugueses, dos mais humildes e iletrados às elites intelectuais mais iluminadas.
A vida profissional permitiu-me, ao longo de décadas, conviver, algumas vezes de muito perto, com as mais altas figuras nacionais, dos chefes de estado aos dos governos central e local, com ministros da educação e outros, com parlamentares e figuras gradas dos partidos políticos, com os mais prestigiados jornalistas e comentadores dos jornais, da rádio e da televisão (tudo gente do direito, da economia e finanças e das humanidades) e pude, salvo uma ou outra excepção, constatar a falta de cultura geológica desta elite que, neste domínio, não difere do comum dos cidadãos.
Urge, pois, elevar a cultura geológica dos portugueses e isso começa na escola. De há muito que venho alertando, em textos escritos e em intervenções públicas, para a pouca importância dada ao ensino da Geologia nas nossas escolas do ensino básico e secundário. Até parece que quem decide (leia-se o Ministério da Educação) sobre o maior ou menor interesse das matérias curriculares, desconhece a real importância deste domínio da ciência na sociedade moderna.
Exceptuando aqueles que, por formação académica e profissional, possuem os indispensáveis conhecimentos deste interessante e útil ramo da ciência, a generalidade dos nossos concidadãos não conhece nem a natureza, nem a história do chão que pisa e no qual assentam as fundações da casa onde vive. Uns mais, outros menos, conhecem a lenda do malogrado Martim Moniz, entalado na porta do castelo, para que D. Afonso Henriques o pudesse somar às suas conquistas, mas muitíssimo pouco ou nada sabem do que aqui aconteceu há milhões e milhões de anos. Marcados por um ensino livresco, tantas vezes desinteressante e fastidioso, são muitos os cidadãos deste nosso país que frequentaram disciplinas do âmbito da geologia e que, terminada esta fase das suas vidas, esquecem o pouco que lhes foi ministrado sem entusiasmo nem beleza.
Estamos a viver um tempo em que o saber científico e os recursos tecnológicos avançam a passos de gigante e, dia após dia, nos deslumbram. À semelhança de outras ciências, a geologia é hoje um dos pilares da sociedade moderna, facultando alavancas poderosas para o bem e para o mal, ao serviço de uma humanidade a um tempo sabedora e desencantada, à procura de um caminho que tarda em encontrar.


                        Galopim de Carvalho

sexta-feira, 6 de junho de 2014

EMPRESA



Na empresa preso fica
quem a ela só se atém.
Sendo atento a esta dica,
bom gerente nunca é refém.

Dignifica o empresário
saber bem administrar,
tendo em conta, em seu fadário,
não só dela se ocupar.

O mais quero, quanto ao ter,
isca é que cobre o embuste,
nele ficando prisioneiro.

Primazia dada ao ser
faz que o ter a ele se ajuste,
qual valor, sempre em primeiro.


João d’Alcor

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O FEEDBACK DO PROFESSOR JUNTO DO ALUNO


        O feedback é uma forma de regulação, isto é, algo que é introduzido num processo, tendo em vista o seu bom funcionamento. Esta forma de regulação tem lugar em múltiplos campos como os da mecânica, biologia... Estes mecanismos, na maior parte das vezes, são automáticos, como os termóstatos que regulam a temperatura ambiente dentro de determinados limites (por ex. ar condicionado) ou a insulina que vai sendo produzida de acordo com as concentrações glicémicas no sangue.
            Existem, porém, outras formas de feedback, como as que são utilizadas em educação que, longe de serem automáticas, têm intencionalidade, visam determinados objectivos, seja nos resultados de aprendizagem, seja nos modos de aprender, seja nos comportamentos do aluno, além de a sua utilização ter momentos de oportunidade
            A acção de feedback do professor junto do aluno serve, correntemente, para corrigi-lo. Essa acção, contudo, tem que partir da observação que ele faz nos diferentes campos em que o aluno se encontra implicado e traduz-se em mensagens que tentam aumentar-lhe a compreensão do que está a ser estudado, reorientá-lo na pesquisa, chamar a atenção para certo comportamento…
            Com menos frequência, mas não com menos impacto na aprendizagem, o feedback pode assumir a forma de um elogio e/ou incentivo pelos resultados já alcançados. Este tipo de feedback é particularmente eficaz junto dos alunos que se debatem com dificuldades ou que as manifestam com uma certa permanência, mas igualmente aplicável a todos os outros que conseguiram atingir o objectivo fixado.
            As mensagens de feedback do professor, por vezes, nem necessitam de ser muito longas; basta, em certas circunstâncias, uma pequena observação, uma pergunta, para reorientar o aluno e fazê-lo trilhar o caminho mais adequado.
            Enfim, o feedback certo e em tempo oportuno, tem um efeito directo na progressão da aprendizagem, aumenta a motivação do aluno e contribui para a melhoria do ambiente na sala de aula.


                                                           Mário Freire

segunda-feira, 2 de junho de 2014

CONSUMO SUSTENTÁVEL


O direito a um ambiente sadio e equilibrado é um Direito Humano Fundamental. Por sua vez, a preservação do ambiente é um dever de todos os cidadãos. A participação de cada um de nós é importante, porque a qualidade do meio ambiente reflecte-se na qualidade de vida da população.
A humanidade caminha para um grande impasse. O ritmo actual do processo de exploração dos recursos naturais do planeta pode levar à total eliminação das reservas necessárias à vida. As reservas de água, as reservas de combustíveis fósseis, as reservas de ar puro, as terras cultiváveis, tudo isso estão sob ameaça.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera que quase um quarto das doenças no mundo é resultante de problemas ambientais, que poderiam ser evitados. Não só se perdem vidas, mas também são gastos elevados recursos financeiros no tratamento das enfermidades.
Sabe-se que metade da humanidade está situada abaixo da linha de pobreza. Mesmo assim, consome-se, actualmente, 20% a mais do que a Terra consegue renovar. Trata-se de um dilema cruel, pois qualquer pessoa de boa vontade gostaria que toda a população do mundo ultrapassasse a linha da pobreza, em direcção à melhoria das condições de vida. A única saída é adoptar padrões de produção e de consumo sustentáveis. Isso significa diminuir o consumo irresponsável.
Esses objectivos somente serão alcançados se estimularmos, à escala mundial, o consumo consciente. O consumidor consciente é aquele que ajuda a construir uma sociedade mais sustentável e justa. De acordo com a forma e a intensidade com que consome recursos naturais, produtos e serviços, o consumidor consciente manifesta a sua responsabilidade social.
Os hábitos alimentares com excessiva predominância de comida industrializada fazem crescer os problemas ambientais que ameaçam o mundo. É aí que entra o consumidor consciente. Ele pode, por meio das suas escolhas de natureza alimentar, contribuir para evitar, por exemplo, os problemas que poderiam ser causados por mudanças climáticas, decorrentes de um eventual sobreaquecimento da Terra.
Essa escolha também deve reflectir-se nos meios de transporte utilizados pela população. A poluição do ar mata, anualmente, cerca de 1,5 milhões de pessoas, segundo a OMS. Elas morrem de doenças respiratórias atribuídas, principalmente, à queima de combustíveis fósseis.
Os organismos internacionais, como a Unesco e a OMS, recomendam alternativas como o uso de veículos movidos a biocombustíveis ou a bicicleta e as caminhadas. Mais, ainda, incentivam o transporte colectivo.
Transformar os hábitos individuais é uma atitude de consumo consciente. O objectivo é contribuir para a sustentabilidade ambiental do planeta.
O conceito de consumo sustentável, derivado do termo desenvolvimento sustentável, foi amplamente divulgado com a criação da Agenda 21, um documento produzido durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, em 1992.


                                                     FNeves