quarta-feira, 30 de abril de 2014

O NEOLÍTICO - UM RENASCIMENTO CULTURAL


A sedentarização teve certamente consequências intelectuais importantes, primeiro porque facilitou, ou mesmo promoveu, o estabelecimento das primeiras estruturas nas pequenas comunidades fixas, e com elas as primeiras necessidades de preservação do grupo e da sua memória. Certamente se pode incluir aqui a defesa do grupo, as suas estruturas fortificadas, e a necessidade de resolver a questão dos mortos que agora ocorre no mesmo espaço de residência dos vivos. Não admira pois que uma parte apreciável destas grandes estruturas de pedra lhes seja dedicada, isto é, sejam de natureza funerária para enterramentos individuais ou colectivos. São as Antas ou Dólmens que conhecemos por todo o Portugal, mas cuja concentração no Alentejo Central e no Alto Alentejo se destaca pelo elevado número que atinge os vários milhares de unidades.


Simultaneamente ao se fixar num espaço onde decorre a sua actividade o grupo adquire uma noção de centralidade. O seu lugar é o centro do mundo, e é onde volta sempre que a necessidade de sobrevivência requer incursões fora desse lugar muitas vezes de ritmo sazonal, para procurar alimento onde sabe existir. Este facto requer uma capacidade de “navegar” no território envolvente reconhecendo marcas e sinais específicos. A sua actividade começa a ter, cada vez mais, componentes intelectuais que lhe alargam o entendimento do mundo que o rodeia. Mesmo o sol e a lua que sempre o acompanharam no nomadismo adquirem agora outra dimensão. Fixo no centro do seu mundo, a paisagem envolvente torna-se-lhe proeminente.
O céu, onde o sol, a lua e as estrelas se manifestam, faz agora parte dessa paisagem e não pode deixar de reconhecer os ciclos que ocorrem neste “território” cósmico. Vive agora entre dois territórios separados por uma linha mágica, o horizonte, que nunca consegue ultrapassar. Por mais que caminhe nas planícies, ou suba montanhas, no seu território natural, nunca consegue pôr o pé nesse território inacessível onde se desenrolam fenómenos que não controla mas que condicionam a sua vida.
Para além do ciclo primitivo, do dia e da noite, que já conhecia do tempo nómada, agora que vive o ano inteiro no mesmo local, é-lhe fácil associar o progressivo aumento do frio ambiente com a concomitante deslocação para sul do ponto no horizonte onde o sol nasce, e inversamente o aumento do calor abrasador com a deslocação para norte do nascer do sol. Este temor de morrer de frio se o sol fugir demasiado para sul ou de morrer torrado pelo excessivo calor se o sol se aventurar demasiado para norte, além de reflectir em si uma percepção intelectual importante, provavelmente a primeira concepção cósmica do universo envolvente, terá certamente também desenvolvido o desejo de intervir no sentido de impedir que essas fugas catastróficas possam ocorrer. Na impossibilidade de pisar o território onde os astros se deslocam e desenvolvem as suas actividades, umas nefastas e outras benéficas, nada mais pode fazer do que desejar muito intensamente que nenhum desses males aconteça.
É possível que tenha pensado que se conseguisse representar no seu território a ordem cósmica que observava no céu, não só usando figurações na pedra dos astros intervenientes - bem como implantando marcas com grandes pedras que correspondessem aos limites “aceitáveis” desses movimentos - poderia manter esses astros, em particular o sol, em posições confortáveis para o seu dia-a-dia. Talvez por isso muitas dessas grandes pedras apresentem figuras insculpidas representando o sol ou a lua, e noutros locais as pinturas rupestres continuem essa prática.

                                          C. Marciano da Silva


segunda-feira, 28 de abril de 2014

IX CONGRESSO NACIONAL DE CIENTISTAS EM ACÇÃO


Cientes da importância fundamental que as ciências e as tecnologias atingiram nos dias de hoje para o desenvolvimento da sociedade, o Centro Ciência Viva de Estremoz e a Escola de Ciências e Tecnologia da Universidade de Évora em colaboração com o Município de Estremoz, dinamizam o IX Congresso Nacional dos Cientistas em Ação. Uma atividade que permitirá a todos os participantes experimentarem, de uma forma adaptada ao seu nível, como a Ciência é feita.
O IX Congresso Nacional Cientistas em Ação acontece dias 8, 9 e 10 de maio, nas instalações do Centro Ciência Viva de Estremoz. O dia 8 é dedicado ao 1.º e 2.º Ciclos do Ensino Básico; o dia 9 ao 3.º Ciclo do Ensino Básico e o dia 10 ao Ensino Secundário.
Acompanhados pelo professor, os alunos apresentam e defendem o seu trabalho experimental desenvolvido em ambiente escolar, perante cientistas convidados e outros elementos ligados à ciência e ao ensino experimental, tal como num verdadeiro Congresso Científico.

O empenho e dedicação são reconhecidos através da atribuição do 1.º, 2.º e 3.º lugares aos alunos participantes, professor acompanhante e respetiva escola. Estes são ainda complementados com apoios materiais (kits científicos, vouchers, consumíveis para experiências/maquetas, equipamentos digitais, entre outros), entrega de certificados, menções honrosas e troféus pelos vários níveis de ensino. Os projetos a elaborar devem estar relacionados com a temática geral do funcionamento do nosso Planeta e, considera-se que este Congresso é uma ótima oportunidade para divulgar, incluindo a outras comunidades escolares o trabalho que se realiza na sala de aula ao longo do ano letivo.

NOTA DO GESTOR DO EDUCOLOGIA:

No dia 8 de Maio estará presente no Congresso o nosso colaborador, Professor Doutor Galopim de Carvalho, o qual dará o seu nome ao prémio que distinguirá os concorrentes dos 1º e 2º ciclos.

sábado, 26 de abril de 2014

EMENDA


Erros grandes e pequenos
iguais foram ao nascer.
Nunca é algo de somenos
tal em conta sempre ter.

Basta estarmos descuidados,
logo passam a crescer.
Uma vez enraizados,
mais problemas vai haver.

Pra que sejam corrigidos,
antes de mais, se reconheçam,
passo este requerido.

Para tal, que sejam tidos
quais lições e estas cresçam.
Reciclagem faz sentido.


                                             João d’Alcor

quinta-feira, 24 de abril de 2014

25 DE ABRIL: O QUE SE DESEJAVA QUE FOSSE UM PROFESSOR DO PRIMÁRIO



            Nada na escola é neutro. Os alunos aprendem coisas que ultrapassam aquilo que lhes é ensinado pela via institucional. E essas aprendizagens têm a ver com múltiplos factores: modos como os alunos se relacionam; modos como os professores se relacionam com os alunos dentro e fora da sala de aula; hierarquias explícitas e implícitas dentro da escola; expectativas em relação aos alunos; formas de participação dentro da escola; interacções da escola com o meio envolvente e com a comunidade em geral…
São todos estes relacionamentos, expectativas, interacções e vivências, não explicitados nos manuais ou programas, que ajudam a construir conhecimentos, valores e motivações e que adquirem uma importância, por vezes maior do que expressamente está estatuído através dos programas. É o currículo oculto que, fundamentalmente, define uma cultura organizacional e que, numa escola de formação de professores, como a Escola do Magistério Primário, iria assumir uma importância maior.   
            Seria, pois, a partir deste tipo de currículo mas, também, de um novo plano de estudos, com a criação de novas disciplinas, extinção de outras e na reformulação de algumas que já existiam, que se pretendia construir uma concepção diferente de professor do ensino primário; a ele iria pedir-se o desempenho de um conjunto de papéis, na sua prática profissional, que ultrapassasse o simples dar aulas, intervindo nas condições exteriores de modo a proporcionar à criança o ambiente mais adequado ao seu desenvolvimento.
            Desejava-se que ele não se limitasse a ser um mero observador de situações desfavoráveis, mas que tentasse, também, encontrar soluções. Queria-se um professor do ensino primário que fosse, também, um obreiro social não só junto dos pais mas, igualmente, junto das populações, principalmente aquelas situadas mais no interior ou que mais isoladas se encontrassem. Uma utopia ou uma realidade alcançável?


                                                                                                 Mário Freire 

terça-feira, 22 de abril de 2014

O HÁBITO DE SER FELIZ (2)


A neurociência já revelou que o nosso cérebro é ‘plástico’, isto é, é maleável e está em contínuo desenvolvimento ao longo da vida. Esta nova perspectiva vem então reforçar a convicção que é possível reestruturar hábitos e alimentar aqueles que nos proporcionam bem-estar e contribuem para a nossa felicidade.
Sentir emoções fortes é importante, mas a felicidade não se resume a momentos de intensa alegria. Há outras fontes para desenvolver o hábito de ser feliz, nomeadamente nutrir atividades ou atitudes que fazem sentido à nossa vida, que nos dão um propósito. Para isso, há que saber o que queremos na vida e o que não queremos, e ter a autodeterminação para lutar por isso de forma consciente, autónoma e responsável. A este ponto, já metade da capacidade de sermos felizes está nas nossas mãos.
Tal como qualquer hábito, quanto mais o praticamos, mais fácil e automático se torna. Assim, há alguns hábitos que contribuem para a felicidade das pessoas, sendo um dos quais a gratidão. Através da gratidão reforçamos as coisas boas que nos acontecem, contrariando assim a natureza do cérebro para se focar nas coisas negativas em primeiro lugar.
Ao lembrar constantemente as situações positivas, o cérebro, sendo plástico, habitua-se a ‘pensar’ da forma como o direcionamos. Quanto mais se faz isso, mais ele automaticamente se manifesta positivamente. Podemos começar por pequenas coisas: quanto mais as repetirmos, mais se tornam espontâneas e mais facilmente damos o passo seguinte.
Há outros fatores que contribuem para a felicidade, como é o caso de ter um cérebro com uma maior ativação na parte esquerda. Mas também isso é possível alterar através da meditação, por exemplo. Vemos então que o hábito de ser feliz está mesmo nas nossas mãos!
(continua…)

                                                  Rossana Appolloni



domingo, 20 de abril de 2014

INSIGNE BOTÂNICO E GRANDE SENHOR DA PALAVRA


Meu par na direcção do Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa, o Prof. Fernando Catarino, ainda bem activo em múltiplas acções de cidadania, é, de entre os universitários que conheço, um dos que guardo no cofre das boas memórias. Foram 50 anos de convívio profissional e de companheirismo nas lides pela vulgarização do conhecimento científico que protagonizámos neste Portugal sempre adiado, eu, como de costume, falando de pedras, e ele, de tudo o que tem a ver com árvores e florestas, jardins e flores, das rosas às papoilas.
Uma das muitas vezes que, como simples participante interessado em aprender, acompanhei este grande comunicador científico, foi “Onde a Terra se acaba e o mar começa”, como escreveu Camões no Canto III de Os Lusíadas, ou seja, na ponta mais saliente do promontório que marca o extremo ocidental da Serra de Sintra, a que os homens do mar chamavam o “Focinho da Roca”. Com ele desci a falésia no sítio do farol, um escarpado que permite observar aspectos particulares da intrusão magmática que elevou esta “jóia da petrografia”, como se lhe referiu o Prof. Alfred Lacroix, ilustre petrógrafo francês que lhe dedicou particular atenção.
Mas não foi para observar as rochas que descemos até o mar. Fomos em busca da Armeria pseudoarmeria, uma espécie rara de dicotiledónea, da família das plumbagináceas, que ali floresce a um dado nível da estratificação florística presente. Já não recordo a altura do ano dessa memorável excursão. Só sei que, no regresso, a subida foi lenta e ofegante, sob um calor intenso, o que não impediu o professor de falar, descrever, comentar, explicar um pormenor aqui e ali e, até, lembrar Lord Byron, o poeta inglês da viragem do século XVIII ao XIX, que se referiu a esta serra como um “Éden Glorioso”, considerando-a, deselegantemente, uma pérola lançada a porcos.
A elevada sensibilidade poética deste meu amigo, revelou-se-me numa das primeiras saídas de campo que fizemos juntos. Foi na Arrábida, mais precisamente na Mata do Solitário. Aí, numa pausa que fizemos junto de uma Pistacia lentiscus, a vulgar aroeira, o mestre abriu a sacola e retirou, lá de dentro, um livro de poemas de Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), frade e poeta que viveu ali, no convento dos Capuchos. De seguida, leu alguns sonetos para o grupo de acompanhantes deliciados com aquele outro talento do insigne botânico.
A última das várias oportunidades em que tive o prazer de o acompanhar, foi no parque anexo ao Palácio da Pena, em Sintra. Estávamos em Agosto. Os cimos da serra permaneciam envoltos numa nebulosidade fresca, a contrastar com o azul celeste e o calor estival da planura que se estende a Sul da pequena montanha. Contagiado pelas suas explicações, esta preciosa mata, enriquecida por árvores centenárias e exóticas, afigurou-se-me uma sinfonia de troncos e folhagens verdes embaladas num vento leve.
Para os que tiveram o privilégio de lidar com ele, o Catarino, na gíria dos alunos, ou o Mangas, para os amigos mais chegados, é uma mistura alegre e contagiante de simpatia, humanidade e sabedoria.

                                Galopim de Carvalho


sexta-feira, 18 de abril de 2014

CONTRIBUIR PARA A PROTECÇÃO DO AMBIENTE


O ambiente tem sido a grande preocupação de todas as comunidades nas últimas décadas, seja pelas mudanças provocadas pela acção do homem na natureza, seja pela resposta que a natureza dá a essas acções.
As pessoas já se consciencializaram que os recursos naturais são finitos e que a sua não preservação ameaça o futuro das novas gerações. Tornou-se evidente, também, que é necessária uma grande quantidade de recursos naturais para mantermos o estilo de vida actual. Esta exige um alto nível de conforto que só pode ser oferecido com o comprometimento da qualidade ambiental do nosso planeta.
            Para isso, é também necessário impedir ou reduzir as emissões de poluentes. A poluição verifica-se quando substâncias perigosas são lançadas no ar, nos rios ou no mar, contaminando não só os meios em que se encontram, como também os animais e as plantas.
Pode surpreender, mas a digestão das vacas pode ser prejudicial para o ambiente; há produção de grandes quantidades de metano, um gás 23 vezes mais poderoso que o gás carbónico, como causa do aquecimento global. Supõe-se que uma vaca produza entre 200 a 500 litros de metano por dia. Como reduzir este valor? Modificando a alimentação do gado, o que não é fácil, por ocasionar despesas acrescidas para os criadores.
Um fenómeno idêntico ocorre nos aterros sanitários. Todavia, neste caso, o gás produzido (biogás), com elevada percentagem de metano, poderá ser recolhido e armazenado. É usado quer em aquecimento doméstico, quer em aquecimento industrial.
Não há produção de energia sem que haja impacte ambiental. Este poderá ser minimizado se usarmos fontes de energia renováveis, tais como painéis solares ou turbinas eólicas. O mesmo sucede com os transportes que emitem para a atmosfera não só gases tóxicos como, também, finas partículas, muito prejudiciais em especial para quem sofra de doenças respiratórias.
O Protocolo de Kyoto obrigava, apenas, os países desenvolvidos a reduzir as emissões de CO2. Entretanto, hoje verifica-se que os países em desenvolvimento, encabeçados pela China que é o maior emissor mundial de CO2, são responsáveis por uma elevada percentagem dessas emissões.
Será um desafio para todos os países, colaborar no sentido de reduzir as emissões de poluentes. Só existe um planeta Terra. É altura de actuar.
                              
                                 FNeves